O presidente russo Vladimir Putin declarou guerra. Mas contra quem é essa guerra? Até que ponto o massacre em Beslan pode ter sido uma das clássicas táticas de desinformação dos órgãos de inteligência russos? Por Jeffrey Nyquist.

Na cidade russa de Beslan terroristas anônimos mataram centenas de adultos e crianças. No sábado, o presidente da Rússia, Vladimir Putin,  lançou uma declaração de guerra, conclamando a mobilização do país.

Com expressão toldada ante as cameras de TV, Putin responsabilizou o desaparecimento daquele “vasto Estado”, a União Soviética, pelas lamentáveis condições da Rússia atual. “A despeito de todas as dificuldades”, disse Putin, “temos agido no sentido de preservar o núcleo do colosso que foi a União Soviética”. Este núcleo, agora, está sob ataque.  “ 'Alguém' quer destruir o que resta da URSS. Nós nos mostramos enfraquecidos”, disse Putin, "e os fracos são pisoteados".

Existem muitos aspectos curiosos no massacre de Beslan. Na edição de quarta-feira do Wall Street Journal, o campeão russo de xadrez Garry Kasparov chamou a atenção para a falta de interesse do mundo islâmico em relação ao Norte do Cáucaso. Então, qual seria a causa da sensação em relação ao terror? Assim, de acordo com Kasparov, o discurso de Putin foi desconfortavelmente familiar para qualquer um que tenha vivido sob o tacão soviético.

Na configuração atual os serviços secretos russos controlam o governo russo. Controlam, também,  as“antigas” repúblicas sovieticas  (mesmo naquelas em que haja um arremedo de independência). Eles supervisionam as regiões militares da “antiga” União Soviética. Eles dirigem e coordenam o crime organizado. Continuam a trabalhar com os partidos comunistas de outros países em outros continentes, inclusive com o Partido Comunista Chinês. Mas não termina por aí. Há muito mais neste quadro. Segundo o ex-tenente-coronel da FSB, Alexander Litvinenko, as forças de segurança do Estado lançam mão, regularmente, de terrorismo contra o próprio povo russo. Para o cidadão desinformado esta declaração pode soar ultrajante. No entanto, foi Moscou que construiu a infra-estrutura do terrorismo global. Moscou inspirou e treinou uma geração de terroristas.

Na semana que passou,  Litvinenko fez uma pergunta e, ao mesmo tempo, deu a resposta:“Quem  chefia as Islambuli Brigades a quem foram creditados os recentes ataques na Rússia? Esta pessoa é, ninguém menos que Mohammed al-Islambuli, oficial de alta patente da KGB. Ele e seu irmão,  Khaled, assassinaram o Presidente egípcio  Anwar Sadat em 1981. Falando francamente, eles são máfia – traficam drogas e armas na Rússia.

Em  2002 Litvinenko escreveu um livro sobre o envolvimento da FSB/KGB’s com o crime organizado e com o terrorismo. O título do livro em inglês é  Blowing Up Russia: Terror From Within. O livro  documenta “atos de terror, raptos e assassinatos  por encomenda organizados pelos Serviços Federais de Segurança da Federação Russa.” Antigas estruturas da KGB usaram o crime e o terrorismo para manter o controle sobre o Estado e a economia russos, escreve Litvinenko.“A isto, deve-se adicionar a correspondente linha seguida pela política externa: uma linha de isolamento político através do confronto com o Ocidente; militarização da economia russa; o começo de uma nova corrida armamentista; um aumento do contrabando e venda de armas e de tecnologia russas a governos hostis às nações desenvolvidas; o uso dos canais do FSB para o contrabando de narcóticos, sob o controle e proteção do mesmo...”

O Kremlin tomou o massacre de Beslan como uma provocação clássica “Alguns desejam tirar um naco suculento de nós,” explicou Putin, referindo-se à região do Cáucaso, riquíssima em petróleo.. “Alguns outros lhes estão dando apoio. E o estão fazendo por acreditarem que uma das maiores potências nucleares, a Rússia, ainda lhes seja ameaçadora e, portanto, essa ameaça deva ser removida. E o terrorismo, de fato, é, apenas, uma ferramenta para a consecução desses objetivos.”  Em outras palavras, existe alguém que deseja esmagar a Federação Russa e apoderar-se do seu petróleo. Este alguém almeja quebrar a espinha dorsal do Estado Russo, despojando-o  de seu arsenal nuclear, pois este “ainda” o ameaça”. É este um repto lançado para toda a Rússia, alertou Putin, “para todo o nosso povo. Nosso país foi atacado”.

O plano é “intimidar” a Rússia, usando de  “crueldade desumana”, “paralisar nossa vontade e desmoralizar nossa sociedade”. Putin foi mais além: “Poderia parecer que tivéssemos a escolha entre resistir aos terroristas e atender suas demandas, rendendo-nos ou permitindo-lhes que destruíssem, despedaçassem a Rússia

A escolha, no entanto é clara. Destruir ou ser destruído, matar ou morrer. “É impossível fechar os olhos ao óbvio”, disse Putin. “Não estamos lidando com ações isoladas destinadas a amedrontar-nos. Estamos, sim, lidando com intervenções diretas contra a Rússia, através da via do terrorismo contra nós, em uma cruel e completa guerra, em que mais e mais compatriotas são mortos”.

O que de melhor podemos fazer é a “mobilização do país em face de um perigo comum”. O povo  russo deve unir-se. “Compatriotas”, alertou, “o objetivo daqueles que enviaram bandidos para perpetrarem este hediondo crime era de amedrontar os cidadãos russos, desencadear um banho de sangue fratricida no Norte do Cáucaso”. Em resposta a esta conspiração, o presidente anunciou “medidas para reforçar a coesão interna do país”. Prometeu criar um novo sistema para …o controle da situação no Norte do Cáucaso”. Segundo Putin, “este é o único meio que temos para derrotar o inimigo”.

E quem seria este misterioso inimigo que procura amedrontar e dividir os russos? Uma pista: é o mesmo e velho inimigo das décadas de 1950, 1960, 1970 e 1980. E teria sido, de fato, uma provocação  massacre de Beslan? Outra pista: a FSB era, anteriormente conhecida por KGB e a especialidade da KGB era a...pro vocação. Existe um cabedal de evidências que mostram que Putin chegou ao poder através de ações terroristas patrocinadas pela FSB(FSB-sponsored terrorism). A segurança estatal russa provocou a (Segunda  Guerra Chechena). Os agentes de Putin plantaram as bombas que arrasaram  edifícios russos em 1999. Além disso, os terroristas chechenos que tomaram os reféns foram publicamente identificados como agentes do Kremlin.

Na quarta-feira, o Washington Times publicou um artigo intitulado “Putin despreza apelos de Washington para que seja usada diplomacia com os chechenos”, de  Nicholas Kralev. De acordo com esse artigo, Putin teria acusado os EUA de solaparem a guera da Rússia contra o terrorismo. Acusa, também, funcionários americanos de terem-se reunido com líderes chechenos. Outro fato, ainda mais comprometedor, sob o ponto de vista de Putin, seria a concessão de asilo político a Ilas Akhmadov, ministro do interior checheno e líder rebelde. O Kremlin usa esse e outros fatos para mostrar que os EUA apóiam o terrorismo checheno e que Washington tem por objetivo desmoralizar e dividir a Rússia através de “um banho de sangue fratricida no Norte do Cáucaso”. Não confunda isso com “paranóia russa”. “O que estamos lendo e ouvindo é propaganda calculada. É uma característica do assassino de atacado acusar a vítima de possuir no interior dela, vítima, intenções idênticas contra ele, assassino.  Esta  propaganda soa como música aos ouvidos daqueles que desejam enganar-se, dos inocentes úteis e dos companheiros de viagem que povoam a esquerda americana. Ao mesmo tempo, cobre o Presidente Putin com um halo de inocência. 

A política russa entrou em uma nova fase. A declaração de guerra de Putin contra um país que não foi nominado, sua mobilização da Rússia, seu chamado pela unidade e sua nostalgia dos tempos da URSS já caracterizam esta nova fase. Esta política é claramente anti-americana e anti-capitalista. Como foi dito pelo ex-coronel Litvinenko, da FSB em seu livro: “O argumento filistino de que ‘isto simplesmente não é possível’ é, apenas, a negação psicológica da vítima em a aceitar o pior.

Bem vindo  à nova Guerra Fria.


Notas:


© 2004 Financialsense.com

Tradução: Ricardo A.N. Dornelles

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