As dúvidas que cercam os acontecimentos em Beslan, e as medidas autoritárias tomadas pelo presidente russo Vladimir Putin, levantam sérios temores sobre os rumos políticos que a Rússia pode vir a tomar. Por Jeffrey Nyquist.

Muitos no Ocidente gostariam de saudar a tragédia de Beslan como uma oportunidade para uma maior cooperação entre Rússia e EUA no combate ao terrorismo. No mundo real, entretanto, as relações entre Washington e Moscou entraram em parafuso. Na Rússia, assistimos ao nascimento de uma ditadura que colabora com uma sutil propaganda antiamericana. O que era mantido longe das vistas, agora se mostra claramente: os totalitários ainda estão no comando. O pretexto de Putin para reforçar sua ditadura encontra-se nos 350 corpos das vítimas de Beslan.

O que teria ocorrido de fato em Beslan (onde centenas de crianças foram assassinadas por terroristas?) Ainda desconhecemos os fatos.

A jornalista russa Anna Politkovskaya declarou que a FSB envenenou-a, durante um vôo de Moscou a Rostov, efetivamente impedindo-a de chegar a Beslan. Não foi a única. O jornalista Andrei Babitsky foi detido no aeroporto de Vnukovo com base em um “pretexto torpe”. Elementos da segurança russa drogaram o café da jornalista Nana Lezhava, da Geórgia, tirando-a de ação em um momento decisivo. As 55 nações da Organização de Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) relacionaram estes e outros incidentes em um liquidação da democracia russa já estava pré-planejada, como, então, Putin poderia justificar sua mal-arranjada tomada de poder ao povo russo? Ele, certamente, tinha algo em mente.

As seguintes mudanças foram propostas por Putin: 1) Fim das eleições diretas para os governadores regionais que, ao invés de serem eleitos, seriam nomeados por ele, Putin e confirmados pelas assembléias regionais. (2) Deputados para a Duma seriam escolhidos a partir de listas partidárias, o que tornaria a oposição parlamentar virtualmente impossível; (3) a restauração da pena de morte está sendo considerada (sugerindo a volta “à disciplina” sanguinária da era Stálin ). Sendo mantido o sentido que dão as últimas notícias, podemos esperar que, sob os mais diferentes pretextos, companhias privadas sejam confiscadas, que contas bancárias sejam congeladas e empresários sejam presos, enquanto o Kremlin reconstrói sua maquina totalitária. O governo russo já anunciou um aumento de 50% ao pessoal militar.

Esta assim chamada “Revolução de Setembro” foi recebida com desânimo em Washington e Londres. Como seria de esperar, Vladimir Putin não receberá os parabéns. Foi grosseiro com colegas ocidentais ao dizer-lhes que “ficassem fora dos assuntos internos russos.” O Ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov disse que os EUA não têm o direito de impor seus ideais democráticos a outros países. “Este é um assunto interno nosso”, explicou ele. De nosso lado, não comentamos sobre o sistema Americano de escolha de presidentes.” A atitude de Moscou não traz nada de novo. O que mais angustia nisto tudo é a falta de reação da elite Ocidental; em Washington existe uma forte tendência ao auto-engano, principalmente em assuntos que envolvam a Rússia e essa tendência luta contra a verdade. E o que seria verdadeiro? O antigo componente da FSB, Alexander Litvinenko disse, com todas as letras em Treachery (Traição): “O prontuário russo de infecção em outros países – Iraque e outros países perigosos é longo. Relatos secretos de inteligência mostram que, por mais de uma década, Moscou usou suas vendas de armas para países-párias como um martelo estratégico contra os EUA”.

Agora, pergunte-se: Por que a Rússia fez isto?


Notas:


© 2004 Jeffrey R. Nyquist

Publicado originalmente por Financialsense.com.

Tradução: Ricardo A. N. Dornelles.

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