Os movimentos de massa só mantém sua força enquanto nada oferecem no presente e sim um futuro radioso, uma esperança distante, o sonho, a visão, a utopia, transformando-as em um ópio para os frustrados.

O progresso não é um processo de sentido único, e sim um movimento contraditório que carrega em si, dialeticamente, sua negação. Progresso e regressão caminham juntos, envolvidos na dança infernal do universo mercantil. Daí, nenhuma salvação está assegurada de antemão. A História é o domínio do incerto e do possível, com um desenvolvimento heterogêneo, feito de discordâncias, crises, guerras e revoluções.

Cada vez mais em todas as partes do mundo surgem fanáticos que lideram ponderáveis parcelas de pessoas e as conduzem para o caminho que desejam. As informações que nos chegam através da TV, da imprensa, da Internet, geralmente abordam apenas a periferia do fato, sem chegar à profundidade exigida pelo homem moderno interessado nesses fenômenos.

Os movimento de massa dos tempos modernos, quer socialistas, anarquistas ou nacionalistas são, invariavelmente, advogados por poetas, escritores, historiadores, filósofos e semelhantes. São os chamados homens de palavra. A associação entre os teóricos intelectuais e os movimentos revolucionários não precisa ser salientada. Os homens de ação são aliados de última hora que entram no movimento depois que este tornou-se concreto.

O esforço maior da fase inicial de qualquer movimento consiste em conquistar esses homens de ação.

Os homens de palavra pelo ridículo, irreverência e denúncias persistentes abalam as crenças e lealdades existentes e familiarizam as massas com as idéias de reforma e de revolução.

Marx e seus seguidores desmoralizaram a religião, o nacionalismo e a busca apaixonada do êxito financeiro e trouxeram à luz o novo fanatismo do socialismo, comunismo, nacionalismo stalinista e a paixão pelo domínio do mundo.

Denegrindo as crenças e lealdades existentes, o homem de palavra militante cria involuntariamente nas massas desiludidas uma fome de fé, pois um grande número de pessoas não pode suportar a esterilidade e inutilidade de suas vidas a menos que encontrem alguma dedicação fervorosa, ou alguma busca apaixonada onde possam perder-se. Assim, o homem de palavra torna-se o precursor de uma nova fé.

O homem de palavra militante prepara o terreno para a eclosão do movimento de massa desmoralizando os credos e instituições vigentes e retirando deles o apoio do povo; criando indiretamente uma fome de fé no coração daqueles que não podem viver sem ela, de forma que, quando a nova fé seja pregada encontre uma receptividade ansiosa nas massas desiludidas; fornecendo a doutrina e os slogans de uma nova fé; solapando as convicções existentes de modo que, quando o fanatismo fizer sua aparição, estejam sem capacidade de resistência. Os portadores dessas convicções – os homens sem fé, digamos – geralmente não vêem sentido algum em morrer por convicções e princípios, e logo se apegam à uma nova ordem sem luta.

O fato é que os movimentos de massa, ao surgirem, sempre manifestam menos liberdade individual do que a ordem que objetivam suplantar. Na realidade, os únicos roubados nesse processo são os precursores intelectuais. Eles se levantam contra a ordem dominante, desvendam a sua irracionalidade e incompetência, denunciam sua ilegitimidade e opressão, e exigem liberdade de expressão e de realização. Estão convictos de que as massas que respondem ao seu chamamento e ficam ao seu lado anseiam pelas mesmas coisas.

No entanto, quase sempre, a liberdade que as massas almejam não é a liberdade de expressão e sim a liberdade da intolerável carga de uma existência autônoma. Desejam libertar-se da terrível carga da livre escolha, da árdua responsabilidade de realizarem seus egos ineficientes. Não desejam liberdade de consciência, e sim fé cega e autoritária. Eliminam a velha ordem não para criar uma sociedade de homens livres e independentes, mas para estabelecer a uniformidade, a unanimidade individual e uma nova estrutura de sociedade perfeita. Não é a maldade do velho regime que combatem, mas sua fraqueza; não a sua opressão, mas o seu fracasso em amoldá-los num todo sólido e poderoso. A persuasão do demagogo intelectual consiste não tanto em convencer o povo da vilania da ordem estabelecida, mas a sua absoluta incompetência. O resultado imediato de um movimento de massas geralmente corresponde àquilo que povo quer. Nesse processo o povo não é ludibriado.

No entanto, a razão do destino trágico que quase sempre atinge os parteiros intelectuais de um movimento de massas é que eles permanecem essencialmente individualistas, por mais que preguem e glorifiquem o esforço unido. Acreditam na possibilidade da felicidade e na validez da opinião e iniciativa individual. Mas, uma vez que o movimento comece a agir, o poder cai nas mãos dos que não possuem nem fé nem respeito pelo indivíduo. E a razão deles prevalecerem não é tanto a sua desconsideração pelo indivíduo, o que lhes dá uma grande capacidade de manterem-se impiedosos, mas sim, o fato de sua atitude estar de pleno acordo com a paixão das massas pelo domínio.

Quando a velha ordem começa a desintegrar-se, muitos dos homens de palavra vociferantes que pregaram tanto tempo por aquele dia, ficam assustados. A primeira visão do rosto da anarquia apavora-os até a medula. Esquecem tudo o que disseram sobre “o povo simples” e correm a pedir auxílio aos homens de ação – generais, administradores, banqueiros, latifundiários – que sabem como lidar com a ralé e como conter a maré do caos.

O caos é o elemento dos fanáticos. Quando a velha ordem começa a desintegrar-se , eles arremetem contra ela com toda a sua força e ousadia, para fazer com que tudo vá pelos ares. Rejubila-se à vista de um mundo chegando de súbito ao fim. Que se danem as reformas! Tudo o que existe é lixo e não faz sentido reformar lixo! Justificam então suas vontades de anarquizar com a afirmação de que não pode haver um novo começo enquanto o que é velho estiver sujando a paisagem. Jogam de lado os amedontrados homens de palavra, se ainda estiverem por perto, embora continuem a pregar as doutrinas por eles formuladas e a ventilar seus slogans.

Só os fanáticos conhecem o profundo anseio das massas em ação, o anseio por comunhão, pela dissolução da maldita individualidade na majestade e na grandeza de um todo poderoso. A posteridade é quem manda e malditos aqueles que, fora ou dentro do movimento, se apeguem e venerem o presente.

Finalmente, os homens de ação salvam o movimento das dissensões suicidas e da ousadia dos fanáticos. Mas sua aparição geralmente marca o fim da fase dinâmica do movimento. A guerra com o presente termina. O autêntico homem de ação fica atento não para renovar o mundo, mas para possuí-lo. Enquanto a vida na fase dinâmica era o protesto e o desejo de reforma drástica, a fase final se preocupa principalmente com a administração do caos e a perpetuação do poder conquistado.

Com o surgimento do homem de ação o vigor explosivo do movimento é embalsamado e confinado em instituições por ele santificadas. O movimento revolucionário cristaliza-se em órgãos de vigilância e administração e o movimento nacionalista em instituições governamentais e patrióticas. Os órgãos de uma revolução triunfante liquidam a mentalidade. A técnica revolucionária e as instituições governamentais de uma nação nova põem um fim à beligerância chauvinista. As instituições se congelam no padrão de ação unida. Os membros do corpo coletivo institucionalizado passam a agir como um só homem. São unificados pela sua inquestionável lealdade às novas instituições. A espontaneidade torna-se suspeita e o dever passa a ser venerado acima da devoção.

A preocupação de um homem de ação quando assume o poder, é fixar e perpetuar sua unidade e disposição para o auto-sacrifício. Seu ideal é um todo compacto destinado a funcionar automaticamente. Para realizar isso não pode confiar no entusiasmo, pois o entusiasmo é efêmero. A persuasão também é imprevisível. Ele se inclina, então, a confiar na força e na coação e a fundar a nova ordem sobre as costas do povo e não sobre o seu coração.

É verdade que o influxo desses homens de ação acelera a transformação do movimento num empreendimento que só mantém sua força enquanto nada oferece no presente e sim um futuro radioso, uma esperança distante, o sonho, a visão, a utopia, transformando-as em um ópio para os frustrados.


Notas:


Bibliografia: “Fanatismo e Movimentos de Massa” de Eric Hoffer, editora Lidador, 1968.

 

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