No mundo real – não naquele mundo mítico das notícias em 60 segundos (1) – a principal ameaça aos EUA não é a Al-Qaeda (uma organização sem reservas petrolíferas, com poucas armas de destruição em massa e misteriosos líderes escondidos em cavernas). A principal ameaça aos Estados Unidos é um país grande, com milhares de armas nucleares. Conforme alertou Alexei Bayer em seu comentário de 8 de outubro (“A Rússia Fora da Tela do Radar”) no Wall Street Journal: “A elite da política externa de Washington se engana com suas próprias declarações, acreditando que os EUA são hoje a única superpotência militar e que mantém uma esmagadora vantagem sobre qualquer rival em potencial. Isto é puro nonsense.”

Mas como este “puro nonsense” tornou-se consenso? Assim como todos os nonsenses amplamente aceitos, este aqui foi entronado pelos mais inteligentes dos inteligentes – pela “alta sociedade”. O problema de Washington, e o problema da América em geral, é que muita gente quer pertencer a “alta sociedade”. E é aqui que comédia e tragédia tornam-se uma. É com pesar que informo que não existe “alta sociedade” coisa nenhuma e nem nunca existiu. Há apenas um grupo dominante que, à título de taxa de matrícula, exige aquiescência intelectual. As pessoas verdadeiramente inteligentes não são fabricadas em série, nem são engarrafadas, empacotadas ou vendidas para grandes audiências ou para políticos espertalhões. Pensamentos e idéias engarrafadas, empacotadas e vendidas às massas são, invariavelmente, simples e frívolas. O problema com o processo democrático é esse: empacotar “verdades” políticas para as massas compromete nossos líderes com perigosas mitologias. Conforme Bayer deixou claro em seu comentário de 8 de outubro: “O orçamento do Pentágono pode ser maior do que tudo o que o resto do mundo gasta com defesa, mas a Rússia ainda pode incinerar toda a América em apenas 15 minutos – algo que não combina nada com uma suposta dominação mundial de Washington”.

O comentário de Bayer pede um complemento: Se a Rússia tem poder de fogo para “incinerar” a América, é forçoso admitirmos que os mísseis intercontinentais russos (extremamente precisos) podem ser lançados contra as forças militares americanas de forma a mutilar a dissuasão nuclear dos EUA (e neutralizar as forças convencionais). Os especialistas americanos, bem como o público americano, têm de entender que a Destruição Mútua Garantida (Mutual Assured Destruction – MAD) é um mito, bem como a supostamente indestrutível “tríade” de retaliação nuclear (composta de bombardeiros, mísseis terrestres e submarinos lançadores de mísseis). Não há razões militares para destruir cidades, pois destruir armas colocará as cidades de seu inimigo de joelhos.

A destruição, num ataque surpresa, do aparato de dissuasão nuclear americano não é fantasia. A Rússia vem treinando seus militares pensando exatamente nesta oportunidade. Em verdade, todo o atual panorama internacional, desde a posição antiamericana de França e Alemanha até a natureza diversionista da guerra contra o terror e a parceria estratégia Rússia-China, encaixa-se direitinho neste cenário. Enquanto nossas estratégias estão voltadas para a Al-Qaeda e o Iraque, nosso aparato de dissuasão nuclear pode estar vulnerável a ataques cirúrgicos. Ataques “terroristas” contra os sistemas de comunicações podem anular os sistemas de aviso prévio americanos. Novos métodos para rastrear mísseis balísticos podem já estar na ativa. Mísseis intercontinentais russos, lançados para retaliar supostos ataques terroristas diversionistas, podem destruir os silos nucleares americanos e bases de bombardeiros. Articulistas e os chamados “experts” freqüentemente deixam-se levar pela idéia errônea segundo a qual as armas nucleares existem apenas para destruir centros populacionais; mas a onda de choque provocada pela detonação de uma bomba de 25 megatons no oceano pode destruir todos os submarinos num raio de 18 a 20 quilômetros. Armas nucleares menores podem destruir bases aéreas e silos de mísseis nucleares. A verdade levantada por Bayer nas páginas do Wall Street Journal, portanto, tem um significado mais amplo. Não se trata apenas de a Rússia poder destruir a América num ataque suicida. A Rússia possui armas que têm o poder de vencer a guerra se usadas adequadamente combinadas com outras forças (regulares e irregulares). Neste contexto, o ressuscitamento da URSS imposto pelo presidente Vladimir Putin está longe de ser espontâneo. Há muitas evidências que falam a favor de uma longa estratégia em formação, que pode ter sido concebida antes do colapso da União Soviética.

Esta semana, um amigo do exterior confessou sua preocupação com a perseguição sofrida por um jornal russo. “Sem dúvida, o comunismo voltou”, explicou. Se isso for verdade, imagine o perigo que isto representa para os Estados Unidos. O comunismo estava morto mas agora está vivo. Irá a administração Bush tomar juízo e enfrentar esta emergente ameaça?

A edição de quarta-feira do Wall Street Journal provocou os leitores com o artigo "A Look Into Putin's Soul” (“Uma Investigação na Alma de Putin”), de Janusz Bugajski. De acordo com Bugajski, “a relativa fraqueza da Rússia, tão citada pelos apologistas de Putin, é perigosamente enganadora...”. Mas a América se apega teimosamente a mitos. E mitos são reconfortantes. Para piorar, a ignorância da América com as coisas da Rússia ficou evidente quando o candidato John Kerry, durante o primeiro debate com George W. Bush, referiu-se à sua visita na sede da KGB na “Praça Treblinka”. Treblinka era o primeiro campo de concentração no qual os judeus foram sistematicamente assassinados. Não existe “Praça Treblinka”. Até onde pude perceber, ninguém na mídia comentou este erro de Kerry (2). E ninguém na grande mídia estava a fim de criticar o candidato democrata neste sentido.

Os sinais que vêm do Império Soviético são ruins, mas a mídia ocidental está distraída. Na supostamente democrática República Tcheca, onde as secretas estruturas comunistas dominam a economia e o Estado, há vozes corajosas se expressando. No contínuo julgamento e perseguição ao ex-prisioneiro político Vladimir Hucin, a ativista tcheca Hana Catalanova dá este testemunho ao Ocidente: “O comportamento politicamente correto não se aplica na luta contra o terrorismo e o extremismo, como nós, que honramos a liberdade e a democracia, podemos constatar. O mundo mudou para todos nós desde 11 de setembro de 2001 e nunca mais será o mesmo. A origem do mal, do terrorismo e do extremismo se espalha por todas as partes do mundo. Ela tem um nome. Chama-se comunismo! A história e os fatos atuais são provas convincentes disso.”

Há também o recente testemunho de Frantisek Bednar, da Associação Mundial de Prisioneiros Políticos da Ex-Tchecoslováquia. Bednar afirma: “Não há dúvidas quanto à permanente existência das leis comunistas após a sublevação de 1989. Façamos a nós mesmos uma pergunta: Como é possível que algo como [o julgamento de Hucin] exista no século XXI, 15 anos após a dissolução da polícia secreta comunista?” Indo direto ao assunto, Bednar diz que o Ocidente e seus representantes “aceitam ex-comunistas como parceiros comerciais. Além disto, o termo ‘anti-comunista’ é agora visto como extremismo de direita.” Ele afirma também que “os anti-comunistas perderam totalmente, e a democracia ocidental foi derrotada. Agora, tudo se reduz a uma despudorada busca pelo lucro. Eis porque a União Européia faz silêncio sobre o caso Hucin, assim como a América!”

O Wall Street Journal está de parabéns pela publicação de artigos honestos e corajosos sobre a Rússia. Apesar das advertências virem em boa hora, o Ocidente continua adormecido. Algo tem de ser feito para acordar uma nação-sonâmbula. Há de ser dado início um debate sobre a Rússia. Talvez ele já tenha começado.

Eu não vou me calar.


Notas:


N.T.

(1) É comum, nos telejornais americanos, as notícias internacionais serem cobertas em pequenos blocos de 60 segundos.

(2) Na verdade, John Podhoretz percebeu prontamente o erro e, no dia seguinte ao debate, seu Jeffrey R. Nyquist

Publicado por Financialsense.com

Tradução: Edward Wolff

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