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O Presidente Bush está dirigindo importantes mudanças em sua Administração, especialmente na política de Segurança Nacional. As renúncias do Procurador Geral e do Secretário de Estado dão uma nota importante dessas mudanças. Também na CIA, modificações importantes se estão processando.

Imprevistos à parte, a Assessora para Assuntos de Segurança Nacional, Condoleeza Rice, substituirá Colin Powell como Secretária de Estado. Rice é proveniente da Universidade de Stanford, onde é sovietologista. Em 1984 foi conselheira para assuntos de política externa do então aspirante a candidato à Presidência Gary Hart (senador democrata). Em 1986, Rice trabalhou no Pentágono por um ano, fazendo estudos para Guerra nuclear, como assessora especial do diretor do Estado- Maior Conjunto. Em 1987, a atuação de Rice chamou a atenção do antigo assessor de segurança nacional, Brent Scowcroft em um jantar oferecido pelo Departamento de Ciência Política da Universidade de Stanford. Scowcroft já havia ensinado História Russa em West Point e iniciou, então, o diálogo com “Condie”. Quando George H.W. Bush foi eleito presidente em 1988, Scowcroft reassumiu seu posto de Conselheiro para assuntos de Segurança Nacional (que já ocupara na Administração Ford) e convidou Rice a fazer parte de sua equipe no Conselho de Segurança Nacional, onde ela trabalhou por dois anos, tendo, posteriormente, retornado ao magistério, em Stanford. Tornou-se conselheira para segurança Nacional do Presidente Bush em 2001 e é definida como “realista”, em se tratando de política de poder. Outros, ainda a definem como “linha-dura”

A saída repentina de Colin Powell sugere várias coisas a respeito do segundo mandato de Bush. Em primeiro lugar, sugere que o Presidente estaria determinado a agir unilateralmente contra os inimigos dos EUA, sem dar muita atenção aos chiliques europeus. (Powell era tido como mais sensível aos sentimentos da Europa). Em segundo lugar, a Administração vai, provavelmente, aplicar pressão máxima sobre o Irã e sobre a Coréia do Norte. Poderemos ver, também, medidas duras impostas contra Fidel Castro e contra a emergente ditadura da Venezuela.

A despeito do número crescente de problemas, a Administração permanece cautelosa em relação ao Presidente Putin e sua consolidação no poder na Rússia. A Casa Branca falou muito pouco sobre o desenvolvimento das novas armas estratégicas russas. “Nós não apenas realizamos testes nos mais modernos sistemas de lançamento de armas nucleares", disse Putin em uma conferência militar recente. “Estou certo de que, nos próximos anos, faremos uso deles”. O presidente russo complementou dizendo que “as novas armas de Moscou são diferentes de tudo o que outras potências possuem”. Ao fazer estas declarações, Putin fala um pouco do SS-27, um míssil balístico intercontinental móvel que ainda não foi montado em lançadores móveis (como planejado) . Os EUA não possuem nenhuma contrapartida equivalente a este míssil e Condoleeza Rice, como conselheira de Segurança Nacional não incentivou o desenvolvimento de um equipamento americano equivalente ao SS-27. Alguns especialistas suspeitam que regimentos de SS-27 plenamente móvies estejam sendo preparados em “cidades” subterrâneas nos Urais, como a Montanha Yamantau. Relacionado a isto, há o controverso ítem da defesa Americana antimíssil. Uma nova instalação para mísseis antibalísticos americanos está em construção no Alasca. Em resposta a isso, Moscou jacta-se de que o SS-27 é capaz de “enganar” os mísseis interceptadores e penetrar nas defesas americanas. Generais russos ridicularizam em público o escudo anti-míssil de Bush. O orçamento militar russo de 2005 contempla produção em massa de SS-27 e sabe-se, também, que a Rússia testou um novo tipo de míssil, que reúne características de míssil de cruzeiro e de míssil balístico intercontinental.

A saída de Colin Powell trouxe preocupações para Moscou. Os russos acreditam que Condie Rice pode reveler-se um osso duro de roer, como Secretária de Estado. Além disso, colocar um especialista em Rússia como chefe do Departamento de Estado, no exato momento em que a Rússia está renovando sua rivalidade estratégica com os EUA pode ser uma decisão consciente da parte de Bush. A diplomacia russa é claramente antiamericana e os EUA têm sido notavelmente pacientes com o jogo duplo de Moscou. Desejando aumentar seu papel na América do Sul, o Kremlin planeja injetar US$ 1 bilhão no alumínio venezuelano, após ter-se aventurado em empresas de mineração norte-americanas e sul-africanas. A Rússia também formou, com a Arábia Saudita, uma aliança petrolífera, o que sugere uma futura guerra econômica contra os EUA. Parece que o Kremlin está buscando dominar recursos naturais-chave economicamente e, junto com essa política, Putin está tentando construir um novo bloco de alianças que incluiria a Índia, a China, o Brasil e a Rússia. (O presidente do Brasil, Lula da Silva é esquerdista e amigo de Fidel e, em privado, sonha em juntar-se a um grande bloco anti-americano de países). À luz destes desdobramentos, a preferência de Bush por Condoleezza Rice como secretária de Estado pode estar ligada à necessidade de fazer frente à nova estratégia diplomática russa.

Pode haver, também, uma outra razão, invisível ao público, para a súbita remoção de Powell. Durante os debates presidenciais houve uma interessante troca que levantou sobrancelhas em Washington. Ela ocorreu no debate que houve na Prefeitura, quando alguém perguntou ao Presidente Bush sobre os erros em que teria incorrido durante seu primeiro mandato. Bush disse que arrependia-se de algumas escolhas que havia feito, ao montar seu Gabinete, embora não tenha dito quem foram aqueles que o decepcionaram. Este comentário revelou a profunda insatisfação do presidente com relação a alguém –provavelmente Powell. Os bem-informados de Washington têm especulado sobre o papel de Powell em conter os impulsos mais “falcoeiros” do presidente. A controversa invasão do Iraque também exacerbou naturais fissuras entre moderados e conservadores no seio da administração e entre aqueles que prefere m o consenso internacional, e os outros que são partidários da ação unilateral.

Apesar das críticas violentas a respeito do assunto armas de destruição em massa, revelações recentes sobre o envolvimento russo na remoção de material de guerra iraquiano podem servir para a atitude guerreira de Rumsfeld e de Bush. (Aqui, de novo, aparece o jogo duplo da Rússia). De acordo com fontes britânicas de Inteligência, tropas russas “spetznaz” levaram, de caminhão, do Iraque para a Síria, munição relacionada às armas de destruição em massa, às vésperas da invasão americana em Janeiro de 2003. Os russos também removeram documentos relacionados à cooperação militar russo-iraquiana.

Este tipo de novidade, embora seja mal recebida pelos otimistas em economia e esquerdistas, revela um pouco mais a mão da Rússia por trás dos Estados-párias e fala da necessidade de um Secretário de Estado mais duro e que entenda a psicologia política russa.

O Presidente Bush também tomou medidas para fortalecer a CIA. O novo diretor, apontado por Bush, Porter J. Goss está colocando a casa em ordem – e não está sendo fácil. Carreiristas na Inteligência, anteriormente adeptos de intimidar funcionários indicados politicamente para “reestruturá-los” estão sendo reduzidos a burocratas. O vice-Diretor John McLaughlin, um funcionário com 32 anos de carreira demitiu-se. Alguns dizem que sua demissão foi feita em caráter de protesto, declarando que o novo regime de Goss seria “desrespeitoso”. (Oficialmente, a demissão de McLaughlin estava sendo planejada “há muito tempo”). Uma guerra de farpas, via vazamentos, começou. Goss foi acusado de fazer política como um “partisan”. Talvez porque ele não tenha “vacas sagradas” dentro da inchada e ineficiente comunidade de informações americana. De fato, o escritório dele poderá, logo, parecer mais um açougue – as vacas cuidadosamente arrumadas para serem mandadas para o mercado. Goss não está assustado pelas ameaças de demissão em massa ou por críticas de bastidores pelos McLaughlins da vida. A mensagem parece ser: aqueles que estiverem com medo de prestar contas saiam antes de serem postos rua afora. A chefia superior da CIA gozou, por longo tempo, de imunidade a julgamentos administrativos. Finalmente, o estilo administrativo permissivo está sendo atirado pela janela.

A CIA estava infestada de espiões inimigos e nenhuma cabeça havia rolado ainda. Suas operações repetidamente falhavam e nada acontecia. Falhou em antecipar os testes nucleares indianos em 1998 e ninguém foi demitido. Falhou, também, em prevenir a agressão terrorista em 9/11 e ficou tudo por isso mesmo. Forneceu dados falhos sobre o Iraque e sobre a Rússia. Uma agência de Inteligência que gasta de 20 a 30 bilhões de dólares por ano deve poder fazer melhor do que isso. E, agora, finalmente, cabeças começam a rolar.

Os burocratas da CIA alertam que o moral da Agência afundou. Enquanto seus empregos estavam garantidos, enquanto a incompetência deles estava protegida, estavam felizes. O moral estava alto. Agora, que a casa Branca esta determinada a “resolver o problema da Inteligência”, os carreiristas da CIA sentem-se desesperadamente deprimidos, confusos e mais determinados do que nunca, a embromar. Pessoas não gostam de críticas e agora quem manda são os críticos. Para muitos funcionários da CIA o inimigo é Goss e sua turma de limpeza. Esqueçam da Rússia, da China e de Bin Laden. Esta é a verdadeira guerra de inteligência. E a sujeira já está no ar. A primeira escolha de Goss para diretor executivo (o número 3 da CIA) foi Michael Kostiw, que retirou seu nome após ter vasado que ele teria roubado um pacote de bacon há 20 anos.

O Presidente Bush esta tentando criar um regime mais forte de segurança. Ele conseguirá? Dependerá dos homens que ele escolher e da evolução da atual situação. Sempre que um presidente tenta impor controle em uma burocracia rebelde, vê-se envolvido em uma guerra de “vazamentos” e “contra-vazamentos”, sujeira e mais sujeira. Enquanto escrevo este artigo, o final da história ainda não aconteceu.


Notas:


© 2004 Jeffrey R. Nyquist

Publicado por Financialsense.com

Tradução: Ricardo A.N. Dornelles

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