No Dicionário do Demônio de Ambrose Bierce a seguinte definição é dada para o verbete RALÉ: “Em uma República, aqueles que exercem a autoridade suprema, obtida através de eleições fraudulentas”. Diz, também: “A ralé é como o Simurgh da fábula árabe – onipotente, contanto que nada faça”.

Um observador da política pós-soviética poderia propor o seguinte adendo: “Em um Estado ‘ex’-comunista, aqueles que exercem a autoridade suprema, obtida por eleições e revoluções fraudulentas”.

Historicamente ineficazes, grandes massas populares quase não possuem iniciativas próprias. Existem, de fato, exceções à regra, como a derrubada do Czar pelas massas famintas e por soldados desmoralizados, em Pravda de 25 de dezembro dizia: “Crise na Ucrânia: Um Circo Ocidental com Yushchenko, o palhaço.”

Oficialmente, o Primeiro Ministro Viktor Yanukovych ganhou as eleições presidenciais ucranianas. Por outro lado, o candidato pró-ocidental Viktor Yushchenko – diz ser ele o vencedor. Alguns observadores ocidentais declaram que houve evidência de fraude e que Yushchenko deve assumir como presidente. De acordo com o Felix Dzerzhinsky ergueu ainda continua funcionando em todos os “antigos” países soviéticos; e não nos esqueçamos também, da antiga prática soviética de infiltrar e controlar a oposição. “Poder popular” é algo equivocado. Soren Kierkegaard escreveu que “o público” é uma abstr ação irreal; apenas o indivíduo é real. Existe uma expressão similar em ciência política, em relação às minorias organizadas. O público não organiza nada. O público é, de fato, alvo de organizadores profissionais. Então, quais profissionais foram aqueles que colocaram em movimento a crise ucraniana? Teria sido uma minoria de agitadores profissionais, genuinamente independente, não-estatista e pró-ocidental? Ou teriam sido as experientes estruturas da KGB, que vêm dominando a política ucraniana há 8 décadas?

De um lado, temos Viktor Yanukovych, que é descarada e abertamente pró-russo. De outro, encontramos Viktor Yushchenko que, aparentemente é anti-russo. Temos, então, uma batalha entre dois Viktors. Como tal, isso nos oferece a oportunidade para um jogo de palavras. Um jogo de palavras forjado pelo humor do Kremlin. Ao avaliarmos a situação, não devemos nos deixar levar pela invectiva raivosa do New Lies for Old (Trocando as velhas mentiras por novas). De acordo com Golitsyn, “não pode haver dúvida razoável de que o movimento dissidente como um todo é um movimento de falsa oposição, contolado pela KGB, análogo ao Trust [nos anos 20] e de que muitos de seus membros principais são colaboradores ativos e voluntários do Comitê Central e da KGB”. A criação de um movimento controlado de oposição dentro do Império Soviético serve para canalizar a oposição genuína e como um veículo para a falsa democratização e liberalização que vemos hoje em dia. O fato de um funcionário da KGB deter hoje a presidência da Rússia, não é um acaso. É uma façanha notável, demonstrando a durabilidade dos “órgãos”. O truque totalitário do momento é simples: coloque seus próprios agentes a cargo de sua oposição e o processo de reforma tornar-se-á seu processo. Pode-se dar o nome de democracia – sob Yeltsin ou Putin, sob Shevardnadze ou Saakashvili, sob Yanukovych ou Yushchenko – mas trata-se da mesma máfia burocrática de sempre.


Notas:


© 2004 Jeffrey R. Nyquist

Publicado por Financialsense.com

Tradução: Ricardo A.N. Dornelles

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