| 13 Dezembro 2004
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O final da crise ucraniana pode depender de um esforço continuado em determinar se o candidato a presidente ucraniano Viktor Yushchenko foi intencionalmente envenenado. Se emergirem provas fortes de envenenamento, o candidato “pro-Rússia” poderá sair desacreditado.
Em 5 de setembro misteriosos sintomas surgiram em Yushchenko. Segundo o Dr. Nikolai Korpan, foram eles: “pancreatite aguda, gastrite aguda, proctocolite aguda, miosite (inflamação na musculatura estriada) aguda, paralisia aguda do n. facial, além de sofrer sintomas dolorosos, por exemplo, no abdômen e na cavidade torácica”. Em 10 de setembro, Yushchenko foi tratado em Viena na Clínica Rudolfinerhaus. Seu estado foi considerado “grave”. Houve a formação de cistos e de lesões de face, ocasionando desfiguramento. De acordo com o Dr. Korpan, “Este é um caso clínico atípico. É raro que observemos na prática diária esse conjunto de doenças agudas combinado com sinais neurológicos”.
Em 21 de setembro, Yushchenko, tendo retornado de um tratamento inicial, declarou a um grupo de legisladores ucranianos, “Olhem para meu rosto e escutem o ruído que fazem minhas articulações. São pequenas amostras do problema que tive. O que sucedeu comigo não foi alimentar, nem reultado de meus hábitos alimentares. Foi um problema relacionado ao regime político deste país”.
Em um relato sensacional, o jornalista Jeremy Page do nota inicial para a imprensa do Hospital reza: “É impossível confirmar ou afastar a possibilidade de envenenamento intencional”. Mais recentemente, em 4 de dezembro, um pedido feito pelos médicos do Rudolfinerhaus de ajuda a “certas organizações internacionais, já que chegamos à conclusão de que a sintomatologia clínica e o curso das moléstias em questão não correspondem ao curso de doenças comuns na prática médica civil. Chegamos a uma consenso claro de que suas (de Yuschenko) doenças são atípicas. Há, portanto, razões para suspeitar do uso de alguma arma biológica”.
Em 8 de dezembro, o web site de Yushchenko anuncia que os médicos de Rudolfinerhaus tentariam “provar” o uso de armas biológicas contra o candidato. O médico particular de Yushchenko, Dr. Korpan, sugeriu que os médico do Hospital foram “abastecidos com elementos novos” relacionados às causas das doenças de Yushchenko. De acordo com Page, a clínica Rudolfinerhaus está “a poucos dias da identificação da substância que deixou desfigurada com cistos e lesões a face do Sr. Yushchenko”. Page escreveu que os médicos “não tinham dúvidas” de que os agentes químicos tenham sido “administrados deliberadamente”. Certamente, pintou-se uma cena muito dramática mas alguma prova –além de uma sombra de dúvida -, emergirá?
A The Fifth Element. De acordo com o artigo, o Presidente Leonid Kuchma mencionara Yushchenko como seu sucessor, logo após um comentário cínico do chefe do gabinete presidencial, Dmytro Tabachnyk, que disse que o regime necessitava de alguém que pudesse ser “realisticamente produzido” como um novo pretendente à presidência. Yushchenko seria perfeito, pois ele já era suficientemente conhecido e poderia ser poupado de “investigações extraordinárias”.
Implicado na decapitação de um jornalista internético, o President Leonid Kuchma é um pária internacional– um típico gângster-apparatchik pós-soviético. Colocado o impasse, como poderia o governo ucraniano reaver seu bom nome? Nesse ínterim, o centro-direita Yushchenko viajava pelo mundo, conquistando as simpatias e a confiança ocidentais. Yushchenko encontrou-se, inclusive, com o Vice-Presidente Dick Cheney, apenas para enfatizar suas credenciais pró-mercado. E foi duplamente útil, nesse particular, que a mulher de Yushchenko tenha sido acusada de ser uma espiã americana.
Do ponto de vista politico, o alegado envenenamento do candidato faz pouco sentido (a menos que tenha sido efetivado por um inimigo mais íntimo, por razões pessoais, ao invés de políticas). Tivesse Yushchenko morrido em setembro, o regime de Kuchma teria ficado com um abacaxi no colo. Segue, então, a pergunta: por que desejaria o citado regime garantir a vitória da oposição? O motivo declarado para o envenenamento, então, não existe. O tempo dirá se Yushchenko é, de fato, anti-russo e pró-ocidental. Como esta coluna admitiu semana passada, não há meios de saber-se a verdade antecipadamente.
Yushchenko pode, de fato, ser um herói; entretanto, a recente farsa de liberalização na Geórgia levanta nossas suspeitas e, após 15 anos, vemos o que acabou acontecendo na Hungria, Polônia, Tchecoslováquia e Romênia. Democracia é uma palavra e seu uso é livre. Por outro lado, oligarquia é mais do que uma palavra. É a realidade cotidiana. Oligarchy. Um leitor desta coluna recentemente escreveu para dizer que Moscou não precisa fazer jogo duplo na Ucrânia. Os russos, entretanto, estão sempre fazendo jogo duplo por que é da natureza deles fazê-lo – na Chechênia, na Geórgia, na Ásia e Europa Centrais. O colapso da União Soviética foi, sim, uma jogada grande e bem executada. A Ucrânia tornou-se, nominalmente, uma “democracia independente” há 13 anos. Tudo bem, mas o que aconteceu a esse país “independente” que, subitamente, é descrito como um satélite russo? Hoje, achamos que a Ucrânia tenha sido liberada de verdade. E, daqui a alguns anos, quando o país for dirigido da mesma maneira de antes (soviética) e com suas estruturas básicas intactas, estaremos, novamente, falando de um “satélite” russo. Quantas destas “liberalizações” teremos de testemunhar, antes que compreendamos o jogo desses apparatchiks pós-sovieticos tornados democratas? A formula é clara, não é? É o equivalente político do “conto do vigário”. Esses países estão, sempre, tornando-se democráticos ou capitalistas. Estão, sempre, de mãos estendidas para o dinheiro ocidental. Além disso, as eleições nesses países jamais são livres ou justas, pois as lideranças sempre permanecem autocráticas e cercadas de capangas. É o que temos presenciado nesses 15 anos.
Yushchenko não é um James Madison ou um Alexander Hamilton. Seu processo mental não é o de um republicano ocidental. Ele criou-se sob o sistema soviético, tendo sido assim educado, doutrinado e familiarizado com os métodos conspiratoriais. Tivesse sido ele um lutador contra a ditadura, imbuído com o espírito da liberdade durante sua vida poderíamos, com segurança, fiarmo-nos em sua excelência como reformador. Mas, por favor, não me digam que este carreirista, esse funcionário é, agora, um “homem do povo” e um democrata instantâneo, convocado pelas massas. Com ou sem veneno, não esperem grandes mudanças na Ucrânia.
Notas:
© 2004 Jeffrey R. Nyquist
Publicado por Financialsense.com
Tradução: Ricardo A.N. Dornelles
