| 06 Janeiro 2005
Arquivo
Após a invasão de Iraque pelas tropas americanas, em 2003, o Presidente George Bush foi solicitado a fazer comentários sobre a interferência diplomática do governo francês nos movimentos militares americanos. “Há alguns pontos de discordância em nossas relações, é óbvio”, admitiu Bush, “pois pareceu a muitos desta Administração que a posição francesa era anti-americana”.
Poucos relacionamentos foram mais importantes para os EUA do que aquele com a França. Sem a França, a independência americana da Inglaterra poderia ter sido impossível. Sem os EUA, a França poderia não ter saído vitoriosa da Primeira Guerra Mundial. Sem os EUA, a França poderia não ter sido libertada da ocupação nazista, em 1944.
Já houve outros períodos de tensão entre os EUA e a França, tendo o pior ocorrido durante a presidência de John Adams, o segundo presidente americano. O governo francês estava, então, preocupado pelo fato de os EUA terem ocupado algumas fortificações localizadas ao longo do Mississipi. Em julho de 1797, Talleyrand assumiu o posto de Ministro das Relações Exteriores da França. Tratou os EUA com hostilidade e suspeição. Além disso, quis recuperar os Territórios da Louisiana, com o fito de reconstruir o Império Francês na América do Norte. Talleyrand alertou seus colegas que os EUA desejavam controlar, sozinhos, a América. Caso se permitisse isso ocorrer, provavelmente a Europa caísse sob o domínio americano. Dessa maneira, instruiu o Embaixador francês em Madrid que: “a conduta americana desde a Independência é suficiente para provar essa verdade: os americanos estão tomados pela soberba, ambição e cupidez; o espírito mercantil da City (Londres) fermenta de Charleston até Boston e o Palácio de St. James guia o Gabinete da União Federal”.
Certa vez, quando negociadores americanos aportaram na França para comporem amigavelmente um conjunto de diferenças, Talleyrand exigiu uma grande propina antes de concordar em iniciar as negociações, no que se tornou conhecido como o caso X, Y, Z. Como era de se esperar, os americanos sentiram-se insultados pelo comportamento de Talleyrand. A guerra parecia inevitável. Nesse ínterim, Talleyrand explicava sua atitude ao embaixador francês na Espanha: “Não existe outra maneira de pôr um fim na ambição dos americanos do que confiná-los aos limites que lhes impôs a natureza; a Espanha, todavia, não está em condições de realizar esta grande tarefa sozinha. Ela deve, portanto, apressar-se em fazer alianças com uma das grandes potências, dando-lhe em pagamento uma pequena porção de seus imensos domínios, a fim de preservar o restante. Talleyrand apregoou o retorno da Louisiana à França – com a finalidade de enclausurar os americanos, travando a “soberba, ambição e cupidez” dos EUA.
Felizmente para os EUA, o esquema de Talleyrand não prosperou. O jovem General Bonaparte foi enviado ao Egito, ao invés de à América. A França, portanto, não restou em condições de travar uma Guerra com os EUA. Talleyrand foi compelido a reverter suas políticas e essa reversão significou a compra, pelos EUA, dos Territórios da Louisiana.
Nos dias que correm, os franceses não estão tão satisfeitos com os EUA como estavam em 1944, embora as relações não estejam tão tensas como durante a crise de 1798. De forma alguma tão cínico como Talleyrand, o ministro francês do Exterior, Dominique de Villepin, danificou seriamente as relações franco-americanas às vésperas da Guerra do Iraque. Em 20 de Janeiro, enquanto Powell esperava Villepin para o almoço, este presidia uma conferência de imprensa fora da ONU, dizendo que a França não apoiaria uma intervenção americana no Iraque. O Secretário de Estado Powell ficou chocado. De acordo com o balanço que faz Kenneth R. Timmerman em oil-for-food scandal) mostrou motivações bem diferentes. É hoje sabido que políticos e empresários franceses aceitaram suborno de Saddam Hussein. Muitos deles mantinham negócios com o ditador iraquiano, estando vivamente interessados em mantê-lo no poder. Os administradores da ONU do programa Petróleo por Alimentos Nações Unidas, em conjunto com colaboradores russos e franceses, lucraram com um esquema que permitiu ao Iraque sair ileso das sanções. De acordo com Bill Gertz, “os franceses trabalharam muito intimamente com o regime Saddam Hussein até a eclosão da guerra”. Após entregar-se às autoridades americanas, o Vice-Primeiro-Ministro Tariq Aziz admitiu que a França e a Rússia haviam prometido, secretamente, pleno apoio diplomático ao Iraque – trancando uma invasão americana, através do Conselho de Segurança da ONU. Enquanto os EUA eram acusados de cobiçar o petróleo iraquiano, companhias petrolíferas russas e francesas negociavam lucrativos acordos com Bagdá. A notória cupidez da França foi duplamente cínica, considerando a corrupção dentro da própria ONU. “Neste templo das Nações Unidas” Villepin opinou: “somos os guardiães de um ideal, guardiães de uma consciência”. De fato, eram guardiães de uma trapaça.
Em termos puramente intelectuais, os argumentos do ministro francês tem o condão da plausibilidade. A despeito do fato de que a retórica de Villepin era parcialmente animada pelo envolvimento comercial de seu país, sua racionalização poderia ser válida. Villepin é sensível aos sentimentos árabes e à estabilidade da região. “A aplicação de força em uma região tão instável pode, apenas, exacerbar as tensões e fraturas em que se abeberam os terroristas”, Villepin explanou. “Dois princípios devem guiar nossa ação: respeito pela integridade territorial do Iraque; e a preservação de sua soberania”. Mas, por acaso, foram a integridade e a soberania iraquianas sacrificadas? Por oportuno: a situação no Oriente Médio teria piorado desde a invasão americana? No momento, pelo menos, as tropas americanas vêm contendo os guerrilheiros de Saddam e os muçulmanos apoiados pelo Irã. Caso a determinação americana diminua, certamente um fiasco se seguiria – e uma grande convulsão. Para ser preciso, muitos executivos franceses podem estar desejando por esse desfecho, pensando no dinheiro que fluiria para Paris. Mas seria o argumento instabilidade – o argumento usado por Villepin ante às Nações Unidas – uma razão válida para manter-se um tirano?
Existe aqui, de fato, um outro tema. É o tema mais amplo da unidade dentro da aliança Ocidental. Se os EUA permanecerem isolados após a invasão do Iraque, então a França merece um crédito por conta desse isolamento.
Com a aliança Ocidental dividida a respeito do assunto Iraque, uma desastrosa divergência de rumos pode ocorrer em um futuro próximo. Com a renovação da ditadura na Rússia, com o aumento do poderio militar chinês, poderia o Ocidente dar-se ao luxo de permitir que os EUA e a França, ou os EUA e a Europa tomem caminhos separados?
Um outro ponto existe e deve ser cuidadosamente considerado. A corrupção da 5ª República Francesa nem seria importante. A ligação da França com o regime de Saddam não foi um caso especial da maldade francesa. Todos os governos ocidentais são sensíveis ao “big business” e este já de há muito faz barganhas com governos totalitários. A comunidade empresarial americana, hoje, corteja o desastre na China, assim como a da França o fez no Iraque. Regimes ditatoriais são regimes de gângsteres. Não se faz negócios com gangsters. Ao fim e ao cabo, quem o faz ou é roubado ou é colocado em posição comprometedora, como cúmplice no roubo a um terceiro. E foi exatamente o que Saddam Hussein fez aos franceses e alemães. Se um ditador desposa os interesses financeiros ocidentais, ele adquire uma espécie de apólice de seguro ou uma anistia. Ele ganha amigos e influencia os influentes. Nem os EUA, nem a França atinaram com essa realidade.
A possibilidade de corrupção financeira sempre foi um componente básico da democracia – na França e nos EUA. Em 1896 William Lecky descreveu o Congresso americano assim: “Tudo o que pode ser dito com segurança é que a desonestidade pessoal no exercício dos poderes legislativos … é larga e inquestionavelmente prevalente nos EUA”. Hoje, devemos reconhecer que os ditadores podem usar a corrupção corriqueira do processo democrático para alcançarem seus objetivos. O governo chinês assim agiu no Canadá, como documentado pelo Notas:
© 2004 Jeffrey R. Nyquist
Publicado por Financialsense.com
Tradução: Ricardo A.N. Dornelles.
