| 18 Janeiro 2005
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O antigo dissidente soviético Natan Sharansky escreveu um livro intitulado Man’s Search for Meaning. Frankl passou a 2a. Guerra Mundial em um campo de concentração nazista, onde aprendeu que existem “duas raças de homens no mundo... as ‘raças das pessoas decentes e a das indecentes’. Ambas são encontradas em qualquer lugar; inserem-se em todos os grupos da sociedade”. Sharansky sustenta que os homens decentes entre os árabes devem ser apoiados em seu esforço para criar um governo baseado em princípios de dignidade e de liberdade. “Quando nós, na União Soviética, lutávamos pelos direitos humanos sabíamos que podíamos ser detidos e aprisionados. Mas também acreditávamos que o mundo livre estaria a nosso lado e isso fortalecia enormemente nossa determinação”. Lamentavelmente, o mundo livre tem tolerado há tempo demais os ditadores árabes, recusando o apoio aos dissidentes árabes. Sharansky diz que o Ocidente subestima a força daqueles que amam a liberdade e se opõem à tirania. “Nos últimos anos”, escreve ele, “o Presidente Bush… usou cada fórum, cada palco e cada discurso para reafirmar sua inquestionável crença em que a região deve ser livre. Tem sido veemente em dizer que existe um nexo profundo entre a liberdade e a paz e entre democracia e segurança”.
De acordo com Sharansky: “se o mundo livre usar seu tremendo poder de alavancagem, os regimes árabes não mais serão capazes de violar os direitos humanos impunemente. E, quanto mais liberdade tiver o povo árabe, mais segurança teremos todos nós”.
Sharansky alerta que o “perigo, hoje, é que os acordos para espalhar a política de direitos humanos e a democracia no Oriente Médio permaneçam promessas vazias”. Diz que todas as ditaduras árabes devem ser pressionadas no sentido de uma liberalização. “Assim como a instituição da escravatura foi apagada da face da Terra, também tiranias governamentais podem tornar-se coisa do passado”. Sharansky é um idealista apaixonado que advoga uma coalizão de nações livres para expulsar a tirania. Este “esforço para espalhar a liberdade ao redor do mundo”, argumenta ele, “deve ser inspirado e liderado pelos EUA”. Somente aquele país, segundo Sharansky, “possui a clarividência e a coragem necessárias para derrotar o mal.”
Entretanto, somos obrigados a imaginar se esta estratégia é factível. No capítulo final, uma curiosa nuvem de dúvida começa a pairar nas memórias de Sharansky’. Durante sua primeira viagem de volta à URSS EM 1997, quando ministro da indústria e comércio de Israel, Sharansky pediu para visitar a prisão da KGB e viu as autoridades russas hesitarem, mas, afinal, concordarem em uma visita com guia. “Terminado o tour oficial, pedi para ver as celas de castigo”. O diretor explicou que as celas de castigo não eram mais usadas. “Eu sabia que ele estava mentindo”, escreveu. Infelizmente, Sharansky não percebeu o significado da mentira. Ele não se atreveu a admitir que o colapso da URSS foi uma vitória dúbia para a liberdade. Em palavras simples, não existe democracia na Rússia, nem liberdade autêntica nas repúblicas ex-soviéticas do Cáucaso ou na Ásia Central.
Na semana passada falei por telefone com um jornalista polonês, recém-chegado da Ucrânia, república ex-soviética. “Tenho de dizer-lhe que um olhar de mais perto me ajudou a discernir melhor o processo todo”, diz, ressaltando que o candidato pró-ocidental, Victor Yushchenko, “serviu na KGB da União Soviética, em uma instalação militar, na fronteira turco-soviética (1976/76).“ Meu correspondente polonês ressalta também que: “Yushchenko está rodeado por muitos elementos adictos à forma soviética de pensar, que bloqueiam o acesso da mídia a ele e não querem envolver-se em qualquer debate”.
Sharansky compreendeu que o diretor da prisão da KGB em Lefortovo mentira para ele a sobre das celas de castigo. E essa mentira não foi a última. As recentes eleições, como as da Ucrânia e as de 2004 na Geórgia e Rússia não transcorreram como foi publicado: “Voltei de lá [Ucrânia] pessimista,” disse meu amigo polonês. “Pareceu-me que as uvas azedarão muito rapidamente”. Os candidatos não são sempre o que parecem. Os processos eleitorais nem sempre são livres ou justos. Além disso, o Ocidente, muito freqüentemente, aceita um arremedo de democracia ao invés da legítima. É de fato vergonhoso que o Ocidente tenha acreditado nas mentiras de Stalin nos anos 30. Igualmente vergonhoso é que um ex-presidente, como Jimmy Carter, declare que Chávez, o aspirante a ditador da Venezuela, tenha sido legitimamente eleito. Agora Carter encabeça o comitê que vai supervisionar as elei ções palestinas de 9 de Janeiro, cinicamente dando a chancela ocidental para que seja eleito outro candidato de dúbia reputação, Mahmoud Abbas (aliás, Abu Mazen) – o novo presidente da Autoridade Palestina. Abbas não é a favor da liberdade, no sentido ocidental do termo. Obteve seu doutorado em uma universidade soviética. Sua tese de doutorado foi publicada em um livro com o subtítulo “As relações secretas entre Sionismo e Nazismo”. É um livro em que se lançam dúvidas de que os judeus tenham sido exterminados nas câmaras de gás nazistas, orçando o número daqueles mortos por Hitler em menos de um milhão.
Se, realmente, existem duas raças de homens, como o diz Victor Frankl, os decentes não ganham eleições automaticamente. O sucesso da liberdade exige um pouco mais do que uma forma democrática de governo. O idealismo de Sharansky desconhece estas complexidades. Se a liberdade não criou raízes na Rússia ou na margem ocidental da faixa de Gaza, quais são as chances de o Iraque tornar-se um país livre? Russell Kirk, autor de um livro intitulado Notas:
© 2005 Jeffrey R. Nyquist
Publicado por Financialsense.com
Tradução: Ricardo A.N. Dornelles.
