“Every decent man is ashamed of the government he lives under”

Mencken

Em meados de dezembro de 2004, depois de fazer análise até certo ponto generosa dos dois anos do governo Da Silva, ponderei quanto as suas reais perspectivas para 2005: “O grande enigma para as consciências livres não é mais saber o que de promessas, escândalos e arrochos aguarda a população brasileira no próximo ano, mas, sim, em que escala, amplitude ou proporção elas ocorrerão”.   

Transcorridos apenas 20 dias de 2005, o quadro não poderia ser mais animador. Senão, vejamos:

1º) Logo no primeiro dia do ano o governo, caladinho, assinou retroativamente a Medida Provisória 232/2004, que elevou de 32% para 40% a base de cálculo dos “prestadores de serviço”, as pequenas empresas que pagam tributos sobre o “lucro presumido”. O governo, como sempre, para elevar a carga tributária, comportou-se como um assaltante ardiloso. Assim, afirmando estar reduzindo em 10% a alíquota do Imposto de Renda das pessoas físicas (quando o exigido seria de 17% em face de inflação de 9,6%), o governo Da Silva meteu a mão no bolso das pessoas jurídicas prestadoras de serviços, expropriando, com o canetaço fiscal picareta, mais de R$ 200 milhões.

Como imediata reação à medida espoliadora, a Associação Brasileira de Supermercados já anuncia um repasse ao consumidor entre 1% e 2%. Sem contar com os milhares de “prestadores de serviço” que serão colocados no olho da rua (só em dezembro, com carteira assinada, foram 352 mil). 

2º) Se no plano econômico o ano começou mal para o trabalhador brasileiro, no âmbito da arena política a coisa ganha proporções alarmantes (e imprevisíveis): Da Silva, após breve namoro com o deputado Virgílio Guimarães (PT-MG), exatamente por sabê-lo flexível no diálogo com as oposições, resolveu passar a perna no aliado e promover a candidatura do deputado Eduardo Greenhalgh (PT-SP) à presidência da Câmara Federal, o menos aceito pelas bases do partido, que o encara como nocivo para o exercício do cargo.

Entre outros problemas, Greenhalhg, antigo advogado e mentor intelectual de Da Silva nas lides sindicais, carrega um perfil nada animador para chefiar o 3º posto na hierarquia política da nação: além de ser considerado tipo intolerante, esteve envolvido - quando Secretário de Assuntos Jurídicos na gestão da prefeita Luiza Erundina, em São Paulo - no indigesto “Escândalo Lubeca”. Greenhalgh, à época, foi acusado por um funcionário da empresa, o Sr. Paulo Albanaze, de ter recebido propina da empreiteira Lubeca na ordem de U$ 200 mil. O Secretário negou o seu envolvimento no escândalo, mas a paraibana Erundina o demitiu no ato, alegando “quebra de confiança” (daí, a marginalização e, mais tarde, a saída de Erundina do PT).

Para tisnar ainda mais o perfil do embigodado candidato oficial, sabe-se que ele, embora seja favorável a lei do desarmamento, anda sempre acompanhado por um guarda-costas empunhando metralhadora (no caso, o segurança Pedro Lobo de Oliveira, a julgar pelo prontuário da Polícia Civil de São Paulo, um dos responsáveis nos anos 70 pela execução – diante da mulher e de um filho de 9 anos – do Capitão do exército americano Charles Chandler).

3º) E, not but not least, para consolidar ainda mais a promissora temporada de arrochos e escândalos no país de Fome 1000, temos o caso trivial do filho de Lula, que, à custa de dinheiro do contribuinte, prodigaliza almoços, jantares, banhos de piscinas e dispendiosos passeios de avião e lancha para quatorze amiguinhos da esquina. Um deles, cara de pau e, sem dúvida analfabeto, teceu depois do convescote, em site doméstico, comentário único, mas revelador dos tempos em que vivemos: “Esse dia nóis foi andá de lancha – todos os mulekes, menos o Lula”.

O que espanta em toda essa melopéia permissiva é a completa omissão do presidente (vai ver, acha “bonito”), que tinha a obrigação de vir a público e pedir desculpas à população faminta, que amarga o pão que o diabo amassou. Tal como fez, por exemplo, o príncipe Charles, da Inglaterra, que depois de ver filho Harry fantasiado de nazista, não só o castigou, como pediu desculpas à comunidade judaica, à população Inglaterra e à Europa inteira.

Pensei em terminar escrevendo sobre os escandalosos temas do AeroLula, juros extorsivos, o premeditado silêncio em torno dos prejuízos ocasionados pela intervenção no Banco de Santos, os vampiros do Ministério da Saúde, os casos Waldomiro Diniz e Duda Mendonça e ainda a novela da Ancinav, que em futuro próximo voltará às manchetes com outro nome digno de (feroz) agência de controle para os meios de comunicação de massa – mas faltou espaço. Fica para depois.


Notas:


(A propósito da Ancinav, por enquanto arquivada, Vladimir Carvalho, cineasta de “talento vermelho”, diz em entrevista que fui “um desastre para o cinema brasileiro”. Vladimir repete Cacá Diegues (“sinhozinho do cinema” e péssimo cineasta) e confunde o cinema brasileiro com o cinema de Estado que se mantém em cima da espoliação das massas. Na escumalha do cinema chapa branca, sacanear Ipojuca Pontes é um álibi.

Nos anos 60, conhecido na Paraíba como “Borotchenko”, o Vladimir era um “quadro” encarregado das tarefas popularescas do PC. Em Brasília, no auge do “desmonte” do Collor, me ofereceu almoço em mansão de luxo do Lago Norte, pois queria que arranjasse emprego para um seu aliado e, depois, detrator.

Já pensei em traçar o perfil crítico do chamado “cineasta vermelho”, daqui e do exterior, mas será que esse tipo de gente merece mais do que desprezo?

De minha parte reafirmo que me sinto honrado de ter ajudado a fechar a Embrafilme, uma célula do esquerdismo e instrumento oficial de corrupção da ditadura de 64 dentro do cinema).

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