Nesta semana, durante as sabatinas confirmatórias no Senado, a Secretária de Estado apontada, Condoleezza Rice, designou seis países como “postos avançados da tirania”: Cuba, Belarus, Burma, Irã, Coréia do Norte e Zimbábue. Uma lista mais extensa, contendo de doze a vinte nomes, poderia ser facilmente apresentada. No entanto, esta é a era da TV que privilegia a abreviação e a condensação verbal. De toda forma, o que é significativo na lista da Srª Rice não é o tamanho da lista, nem mesmo a lista em si.

Por definição, um posto avançado é uma “instalação remota”. A Srª Rice, portanto, refere-se a uma tirania mais abrangente, em que os seis citados não passam de excrescências. Cuba, Belarus, Burma, Irã, Coréia do Norte e Zimbábue seriam, então, “postos avançados” de algo maior. A lista como tal apresenta países que, ou são Estados comunistas ou clientes da Rússia ou da China. Belarus, por exemplo, tem um “tratado de união” com a Rússia. Burma é dominada pela China. A Coréia do Norte faz seus movimentos coordenadamente com a Rússia e a China, recebendo seus armamentos da China. O Zimbábue tem laços muito estreitos com a China. Cuba é um Estado comunista com antigos laços com a Rússia, embora em anos recentes tenha se posicionado mais ao lado China.

Pode haver, também, ligações entre a China e “postos avançados do terror”. Depois de milhares de mortes no World Trade Center, a CIA interrogou o desertor chinês Xu Junping. Ele admitiu que os esforços americanos de capturar ou eliminar bin Laden anteriormente ao 11/9, foram neutralizados por agente de inteligência chineses. No livro Troublemaker, deu a seguinte explicação: “Em minha opinião, os EUA ainda esperam que a forma chinesa de um capitalismo híbrido conduza à democracia. Muito mais provavelmente levará à criação de um Estado militar totalitário e supranacional”.

Sob o domínio de uma cultura que exige otimismo do mercado que, por sua vez é hipnotizado por uma mídia movida a diversão, uma forma sutil de pensamento grupal se aloja. Os analistas de assuntos estrangeiros são forçados a ignorar a inimizade chinesa, a negar que a Rússia e a China continuam a alimentar a Guerra Fria, sob uma bandeira de paz. A grande máquina revolucionária continua a revolver. Na Colômbia, por exemplo, uma revolução comunista esta acontecendo. Tracemos uma linha que conecta aquela revolução com o presidente venezuelano Hugo Cháves. Esta linha passará de Chávez a Castro, de Chávez à China, de Chávez à Rússia. Os que negarem esta realidade estarão deixando de considerar o quadro geral completamente. Estão deixando de considerar a interconexão de eventos estratégicos na América Latina, na Península coreana, no Oriente Médio, nas áreas produtoras de metais na África e na Europa. Inconscientemente a Srª Rice captou o significado dessas linhas e seus pontos de intersecção. Dessa maneira, ela se refere aos “postos avançados da tirania”. No entanto, ela não vai denunciar a “coisa maior”. Ela não pode fazê-lo, entretanto, já que o seu consciente move-se mais devagar que o inconsciente.

De uma maneira um tanto confusa, a Srª Rice descreveu o Presidente Hugo Chávez com “um líder eleito democraticamente que governa de um modo autoritário...”. Parece que a Srª Rice gostaria de trazer Chávez para o lado americano, a despeito dos “passos” que deu contra a liberdade de informação e contra a oposição, que são “profundamente preocupantes”. A Srª Rice adicionou, mais adiante, que o governo da Venezuela “não tem sido construtivo”.

Dois anos atrás, entrevistei o piloto do presidente Chávez, o Major foi ter ido a Moscou e ter convidado fabricantes de armas a irem para seu país. Condoleezza Rice deveria ter declarado, alto e bom som, que Hugo Chávez é inimigo dos Estados Unidos. Tais extremos, no entanto, não são permitidos, pois poderiam forçar o povo americano a repensar sua complacência.

Um pronunciamento direto, cheio de realismo, não é possível, dentro de nossa cultura de shopping center. Parece que os EUA são um país neurótico, dirigido por neuróticos. Carl Jung, certa vez, descreveu um neurótico com as seguintes palavras: “Ele escuta e não ouve; ele vê e é cego; ele sabe e é ignorante ao mesmo tempo”.

Poder-se-ia acrescentar que “ele fala e não compreende o que está dizendo”.


Notas:


© 2005 Jeffrey R. Nyquist

Publicado por Financialsense.com

Tradução: Ricardo A.N. Dornelles.

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