| 21 Fevereiro 2005
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Semana passada, enquanto distribuía estrategicamente o sacrificado dinheiro do contribuinte com a Venezuela do “companheiro” bolivariano Hugo Chávez (algo em torno de R$ 235 milhões, afora os gastos em dólar com a vasta comitiva oficial e o AeroLula), num gesto que pode ser considerado como de alta traição aos integrantes do programa Fome Zero, o presidente Lula da Silva deixou o país em clima de variado tumulto, que resultou, a despeito de sua vontade, não apenas na amarga derrota na disputa pela presidência da Câmara Federal mas, ao que tudo indica, na própria derrocada do cultivado sonho da reeleição presidencial.
(Só para não perder o embalo, registre-se que não pode ser considerado vitorioso o governo que experimenta, de uma só tacada, 1) o repúdio geral da sociedade produtiva à famigerada Medida Provisória 232, que amplia de 32% para 40% a base de cálculo da contribuição social sobre o lucro liquido e do imposto de renda das empresas e que, 2) deixa vingar ao sabor de justificativas retóricas a batalha campal conduzida pelo MTS e sua “reforma agrária” bélica, diretamente responsável pelo trucidamento de pessoas como o policial Luiz Pereira da Silva, torturado até a morte pelos integrantes do “movimento” milionário - a merecer os mesmos cuidados que muito justamente acodem o incensado cadáver da missionária Dorothy Stang - e, ainda mais, 3) sobrevive mal aos sobressaltos diários impostos pelo crime organizado aos empanturrados cofres da Petrobrás, Eletrobrás e Banco do Brasil ).
O presidente Lula da Silva, após a eleição da Câmara Federal, raciocinando como um pigmeu e procurando preservar a imagem de “líder messiânico” engendrada pelo marqueteiro (enquadrado como contraventor) Duda Mendonça, responsabilizou o próprio partido pela fragorosa derrota: “Ganha quem tem mais voto. O governo não disputou (a presidência da Câmara), foi o PT”. Por sua vez, o difícil deputado Greenhalgh, candidato imposto pelo Planalto, atribuiu o desbarato ao governo de Lula: “O voto que me derrotou foi o da insatisfação com o tratamento dado pelo governo aos parlamentares”. Já o Genoíno presidente do PT, depois de se entender com o Planalto, disse que “a derrota maior foi da bancada do partido na Câmara – e não do governo Lula”. Vive-se aqui, diante da catástrofe, o inverso da síndrome de Trotski, o líder comunista que, ao atacar o stalinismo, atrelava a indivisibilidade do poder totalitário (“hegemônico”) a irrecorrível identidade do proletariado com o partido de classe; do partido de classe com a executiva do partido; e da executiva do partido - ao cabo de tudo - com o “líder carismático”.
Sabe-se que o hoje deputado Greenhalgh, antigo mentor de Lula quando líder sindical (e também diligente advogado de terroristas e seqüestradores), foi um dos principais acusados no Caso Lubeca, escândalo que envolvia propina de milhares de dólares para a campanha presidencial do metalúrgico, em 1989, e que levou a prefeita Luíza Erundina a exonerá-lo do cargo de Secretário de Negócios Extraordinários sob o pretexto de “quebra de confiança”. O fato de querer se impor (ainda que depois de quinze anos) um candidato com tal currículo para assumir o terceiro cargo na hierarquia do País só pode ser atribuído ao total desprezo pela consciência democrática ou a completa insensibilidade política. Mas a quem se pode atribuir tal insensibilidade?
A chamada grande mídia, empenhada em manter intocável a imagem presidencial, insiste em desfilar uma série de causas como justificava para a derrota, entre elas o tumultuado processo de escolha do candidato oficial, para não mencionar a falta de interlocução política do governo com o Congresso e, em especial, com o que chama de “ação traiçoeira” do baixo clero, representado de forma solerte pelo deputado eleito Severino Cavalcanti, o nordestino machista (“deplora os homossexuais”, diz o noticiário), particularmente comprometido com o fisiologismo.
Nada disso explica objetivamente a derrota. Ela se denuncia com muito mais sentido pela ação política solerte do partido “hegemônico”, de resto percebida instintivamente não só pelo “baixo clero” mas pelo grosso da oposição, em ocupar o aparelho do Estado e consolidar o projeto de poder com a nomeação e o aproveitamento em larga escala dos “quadros ideológicos” (no fundo, tão fisiológicos, ou mais, que o “baixo clero”) empenhados, dentro da máquina pública, na implantação de um novo e irreversível “socialismo tropical”. Não é por outro motivo que o governo busca ampliar a cada dia a desmesurada carga tributária – e a sociedade e seus representantes políticos, por sua vez, partem para uma aberta confrontação.
Embora desarvorado, não é difícil prever o comportamento político a ser adotado pelo governo com relação à nova mesa da Câmara. Num primeiro instante, ao que tudo indica, partirá para a cooptação temporária do que se compreende por liderança formal do “baixo clero”, tendo em vista a convivência possível para a consecução dos “objetivos estratégicos” do PT e do governo. Caso encontre alguma resistência acima do desejável, partirá para a retaliação mais ou menos aberta ou mais ou menos camuflada, contando com variada munição, entre elas a instituição do deboche e da discriminação ideológica contra um adversário tido como “primitivo” e “reacionário”. Meios e aliados, para tal fim, não faltam ao “establishment” governamental.
