No útimo dia 4, o Wall Street Journal publicou um artigo de Nina Khrushcheva chamado “Vovô, o Terrível” (*). O artigo começa, como esperado, personalizando o regime da KGB: “A presidência de Vladimir Putin prova que o stalinismo jamais acabará na Rússia.” O artigo diz que a ditadura russa “só mudou de nome.” O artigo até que é bom. Mas estou esperando alguém do Wall Street Journal reconhecer que um sujeito chamado Anatoliy Golitsyn previu isso mais de 20 anos atrás, num livro intitulado New Lies for Old.

Lembro-me de um artigo que escrevi para a revista WorldNet em fevereiro de 2001, intitulado The ghost of Stalin in Putin’s Kremlin (O fantasma de Stálin no Kremlin de Putin).  Comecei citando Vasily Grossman: “Esse medo insuperável que milhões de pessoas sentem, esse medo descrito em cartas rubras sob o pesado céu de Moscou – esse terrível medo do Estado...” De fato, para compreendermos o que ocorre na Rússia, temos antes de entender a atrocidade que foram os crimes de Stálin. Esses crimes foram tão sangrentos, tão horríveis, que a oligarquia russa empregaria qualquer expediente para limpar sua barra. Ademais, o Grande Monstro se deu tão bem estendendo seu poder e promovendo o culto à sua personalidade, especialmente por meio de assassinatos e mentiras, que o exemplo permanece sedutor para seus sucessores, deixando-os com duas alternativas: o jeito Stálin de governar e a alternativa menos vil.

A dúvida que assola os governantes do Kremlin desde 1953 é como perpetuar a casa que Stálin construiu sem adquirir sua má reputação. Relutantes em perder seu controle sobre a sociedade russa e incapazes de reconhecer a eficácia demoníaca que é prender e executar milhões de pessoas arbitrariamente, a classe dirigente soviética delineou um meio-termo que pacificaria o Ocidente sem perder os componentes essenciais do império. Esse meio-termo, que nos leva a Vladimir Putin, combina práticas totalitárias vermelhas com elogios falsos à democracia e ao livre mercado. É uma espécie de poder resguardado. Ao invés de genuinamente praticar democracia, a Rússia guia-se por estruturas secretas totalitárias que governam em fronts políticos fictícios. Em essência, não houve capitalismo na Rússia desde 1991. Não houve democracia. Tudo não passa de um boato bem elaborado pela KGB.

A máscara que esconde a face totalitária russa não é perfeita. Ela engana especialistas e analistas mas só porque eles querem ser enganados. A desumanidade do regime de Stálin foi tão grande, tão estonteante, que as pessoas de bem se recusam a acreditar que o sistema de Stálin é um trabalho em progressão.  Não queremos admitir que a máquina de matar de Stálin está sendo renovada e que nós mesmos podemos estar incluídos como as próximas vítimas. Tal admissão alteraria nossa visão de mundo por completo, e tal alteração não é desejável – especialmente quando consideramos que Stálin encarava Hitler como o “navio quebra-gelos” da Revolução. Afinal, poderíamos chegar à conclusão que Putin esteja encarando Osama bin Laden como um “navio quebra-gelos” também.

Em dezembro de 2000, um jornalista cubano perguntou a Putin se ele era de direita ou de esquerda. O presidente russo respondeu: “Sou um amálgama.” Apenas alguns dias após essa declaração, Putin demonstrou o que significa ser um falso amálgama. Ele compareceu à celebração do 83º aniversário da polícia secreta soviética. Durante as festividades, Putin alertou os serviços de segurança contra os repetidos erros do passado stalinista. “Lembremo-nos da história da segurança do Estado,” disse Putin. “Sabemos que essa história é ambígua. Há lições a serem aprendidas, embora amargas.” Ainda mais sinistro, Nikolai Petrushev (o chefe da FSB) notou que a principal ameaça à Rússia eram os espiões estrangeiros “que desvelavam os verdadeiros planos do novo governo russo no tocante à política doméstica.”

A democracia não falhou na Rússia por causa de fatores sociológicos. Ela foi estrategicamente planejada para falhar.


Notas:


(*) Nina Khrushcheva é neta de Nikita Khrushchev.

Publicado por jrnyquist.com

Tradução: Edward Wolff.

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