| 23 Março 2005
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“Quem ainda não esteve lá, estará. Quem já esteve nunca esquecerá”
(Provérbio soviético acerca do Gulag)
O livro “GULAG, Uma História dos Campos de Prisioneiros Soviéticos”, de Anne Applebaum, editado em 2004, não é uma história da União Soviética, nem dos expurgos e nem da repressão em geral. Não é uma história do reinado de Stalin, nem de seu Politburo e nem de sua polícia secreta. As 749 páginas do livro também não contêm uma história completa do movimento soviético pelos direitos humanos. Da mesma forma, tampouco faz justiça à história de nações e grupos de prisioneiros específicos – entre eles, poloneses, baltas, ucranianos, chechenos e prisioneiros de guerra alemães e japoneses - que sofreram com o regime soviético, tanto dentro quanto fora dos GULAG. Não explora por completo as matanças de 1937-1938 que ocorreram principalmente fora dos GULAG, nem o massacre de milhares de oficiais poloneses em Katyn e outros lugares. No entanto, todos esses acontecimentos são mencionados. Segundo a autora, teria sido impossível fazer justiça a todos num único volume.
Também não faz justiça à história dos “degredados especiais”, aos milhões de indivíduos que freqüentemente eram arrebanhados ao mesmo tempo e pelas mesmas razões que os presos do GULAG. Embora a história desses degredados esteja estreitamente ligada à do GULAG, contá-la por inteiro exigiria um outro livro.
O GULAG não surgiu prontinho do nada. Apenas refletiu os padrões gerais da sociedade ao redor. Se os campos eram imundos, se os guardas eram brutais, se as turmas de trabalho eram desleixadas, isso, em parte, se devia ao fato de que a imundície, a brutalidade e o desleixo eram abundantes em outras esferas da vida soviética. Se a vida no GULAG era insuportável, horrível, desumana, se a mortalidade era alta, isso tampouco chegava a ser surpresa, pois em certos períodos a vida na URSS também foi horrível, insuportável e desumana, e a mortalidade se mostrava tão elevada fora quanto dentro do GULAG.
Tampouco é coincidência que os primeiros campos soviéticos tenham sido estabelecidos imediatamente após a sangrenta, violenta e caótica Revolução Bolchevique. No decorrer da Revolução, do terror imposto depois dela e da subseqüente Guerra Civil, pareceu a muitos que a própria civilização havia sido destruída de forma permanente. Sentenças de morte eram impostas arbitrariamente e pessoas foram fuziladas sem motivo ou libertadas de modo igualmente imprevisível. A partir de 1917, todo o conjunto de valores de uma sociedade ficou de pernas para o ar: a riqueza e a experiência acumuladas durante uma vida inteira tornaram-se uma desvantagem, o roubo era glamourizado como “nacionalização”, o assassinato era parte da luta em prol da ditadura do proletariado. O aprisionamento inicial de milhares de pessoas por ordem de Lênin, simplesmente porque antes tinham riqueza ou títulos aristocráticos, nem chegava a parecer estranho ou despropositado.
No inverno de 1941-1942, quando um quarto da população do GULAG morreu de inanição, cerca de um milhão de habitantes de Leningrado morreram também de inanição, isolados pelo bloqueio alemão. É bem verdade que os moradores de Leningrado morreram em casa, ao passo que o GULAG destroçava vidas, destruía famílias, arrancava os filhos dos pais e condenava milhões a viverem a milhares de quilômetros de seus familiares.
A população do GULAG e a população do resto da URSS compartilhavam muitas outras coisas além do sofrimento. Dentro e fora dos campos, era possível encontrar as mesmas técnicas de trabalho desleixadas, a mesma burocracia criminosamente estúpida, o mesmo descaso sombrio pela vida humana. Na URSS de Stálin, a diferença entre a vida no GULAG e a vida fora dele era apenas de grau. Na gíria dos presos, o mundo fora do arame farpado era não “à liberdade”, e sim à bolshaya zona, a “zona principal grande”, maior e menos letal que “a pequena” do GULAG, mas não mais humana.
Em retrospecto, é fácil achar na história do sistema prisional czarista muitos antecedentes de práticas adotadas no GULAG. Assim como este último, o degredo siberiano, por exemplo, nunca se destinou exclusivamente a criminosos. Uma lei de 1736 declarava que, se uma aldeia decidisse que algum de seus habitantes fosse uma má influência, os líderes locais podiam repartir as posses do infeliz e determinar que se mudasse para outro lugar. Caso ele não conseguisse achar uma outra morada, o Estado podia degredá-lo. Aliás, essa lei seria citada por Nikita Kruschev em 1948, como parte de sua – bem sucedida – argumentação, para que se degredassem os membros das fazendas coletivas que fossem consideradas insuficientemente entusiásticos e trabalhadores. O mesmo Nikita Kruschev que apenas 8 anos depois iria denunciar Stálin por esses crimes...
O escritor Fiodor Dostoievski, condenado em 1849 a quatro anos de servidão penal, após ter retornado do degredo siberiano, escreveu Recordações da Casa dos Mortos, ainda hoje o relato mais lido sobre a vida no sistema prisional czarista.
Se o GULAG é parte integral da história russa e soviética, também é indissociável da história européia, pois no século XX a URSS não foi o único país do continente a ter desenvolvido uma ordem social totalitária, nem a ter erigido um sistema de campos de concentração. Os nazistas também o desenvolveram. Esse assunto não pode ser deixado de lado, pois os dois sistemas foram construídos mais ou menos na mesma época. Hitler sabia do GULAG e Stalin sabia do Holocausto. Alguns prisioneiros vivenciaram e descreveram os campos de ambos os sistemas. Os dois eram aparentados e, a partir de 1914, início da I Guerra Mundial, os dois lados construíram pela Europa afora campos de internamento e campos de prisioneiros de guerra. Em 1918 havia 2,2 milhões de prisioneiros de guerra em território russo. A nova tecnologia – a produção em massa de armas de fogo, tanques e arame farpado – possibilitou esses e os campos posteriores. Alguns dos primeiros campos do GULAG foram construídos sobre campos de prisioneiros da I Guerra Mundial.
A expressão “campos de concentração” refere-se a campos construídos para encarcerar pessoas não pelo que elas fizeram, mas pelo que eram. Diferentemente dos campos de criminosos condenados e dos campos de prisioneiros de guerra, os de concentração foram criados para um tipo específico de prisioneiro não-criminoso, mas membro de “um grupo inimigo” ou, pelo menos, de uma categoria de pessoa que, pela raça ou suposta tendência política, era considerada perigosa ou “estranha à sociedade”.
Na Alemanha nazista os primeiros alvos foram os aleijados e os retardados mentais. Posteriormente, os nazistas se concentraram nos ciganos, nos homossexuais e, sobretudo, nos judeus. Na União Soviética, as vítimas foram primeiro ”a gente de antes” (supostos partidários do regime czarista) e depois “os inimigos do povo”, termo propositalmente vago que abrangia não apenas os pretensos opositores políticos do regime, mas também determinados grupos nacionais e étnicos, caso eles parecessem (por motivos igualmente vagos) ameaçar o Estado soviético ou o poder stalinista. Em épocas diferentes, Stálin procedeu a prisões em massa de poloneses, baltas, chechenos, tártaros e judeus.
Na autobiografia Minha Luta, Hitler explicou como percebeu que os judeus eram os responsáveis pelos problemas da Alemanha e que, na vida em sociedade, “todo empreendimento escuso, toda forma de infâmia”, estava ligada aos judeus.
Lênin e Stálin também começaram culpando “inimigos” pelos inumeráveis fracassos econômicos da URSS: eram os “destruidores”, “sabotadores”, “agentes de potências estrangeiras”. A partir do final dos anos 1930, na medida em que a onda de prisões começava a expandir-se, Stalin levava essa retórica a novos extremos, acusando publicamente os seus opositores de serem “uma imundície”, que precisavam submeter-se “a uma limpeza contínua”, tal qual a propaganda nazista identificaria os judeus a imagens de bichos nocivos, parasitas e doenças infecciosas.
Uma vez demonizado o “inimigo”, começou, para valer, o isolamento legal dele. Antes que tivessem sido arrebanhados e deportados para os campos de concentração nazistas, os judeus foram privados da condição de cidadãos alemães. Foram proibidos de trabalhar no funcionalismo público, na advocacia, na magistratura; proibidos de desposar arianos; proibidos de freqüentar escolas arianas, proibidos de ostentar a bandeira alemã, forçados a usar estrelas de Davi amarelo-ouro, e sujeitos a espancamentos e humilhações na rua. Na URSS de Stálin, antes de serem presos, os “inimigos” também eram rotineiramente humilhados em assembléias públicas, demitidos de seus empregos, expulsos do Partido Comunista, abandonados pelos cônjuges indignados e publicamente acusados pelos filhos furiosos.
Nada disso, no entanto, significa que os campos soviéticos e nazistas fossem idênticos. A vida no sistema de campos soviéticos diferia de muitas maneiras da vida no sistema de campos nazistas. Havia diferenças na organização do cotidiano e do trabalho, diferentes tipos de guardas e punições, diferentes tipos de propaganda. O GULAG durou muitíssimo mais e passou por ciclos de relativa crueldade e relativa humanidade. A história dos campos nazistas é mais curta e apresenta menos variações: eles simplesmente se tornaram cada vez mais cruéis, até serem destruídos pelos alemães em retirada ou libertados pelos Aliados.
Duas diferenças entre os sistemas parecem fundamentais. Em primeiro lugar, a definição de “inimigo” na URSS sempre foi muito mais vaga que a de “judeu” na Alemanha nazista. Nesta, com um número muito pequeno de exceções incomuns, nenhum judeu podia alterar sua condição; nenhum judeu preso num campo podia ter esperança racional de escapar à morte e todos os judeus estavam cientes disso o tempo todo. Embora milhões de prisioneiros soviéticos temessem pela própria vida – e milhões deles tenham realmente morrido -, não havia nenhuma categoria de prisioneiro cuja morte estivesse absolutamente garantida.
Sua vivência era muito diferente daquela dos judeus e dos outros prisioneiros que os nazistas enviavam para um grupo especial de campos que se chamavam Vernichtungslager, campos que não eram de trabalhos forçados mas sim, usinas da morte. Havia quatro deles: Belzec, Chelmno, Sobibor e Treblinka. Majdanek e Auschwitz eram tanto campos de trabalhos forçados quanto campos de extermínio. Ao entrarem nesses campos, os prisioneiros passavam por uma “seleção”. Um número ínfimo era designado para algumas semanas de trabalhos forçados. O restante era mandado diretamente para as câmaras de gás, onde eram assassinados e cremados.
Deve ser reconhecido que essa forma específica de homicídio, praticada no auge do Holocausto, não teve equivalente na URSS. Este último país encontrou outras formas de chacinar centenas de milhares de seus cidadãos. Geralmente, eram conduzidos à noite para uma floresta, alinhados, baleados na nuca e enterrados em sepulturas coletivas antes mesmo de chegarem aos campos de concentração – modalidade de homicídio não menos “industrializada” e anônima que a usada pelos nazistas, uma vez que o GULAG, como um todo, não era propositalmente organizado para produzir cadáveres em escala industrial, mesmo que às vezes o resultado fosse esse.
Isto não é tudo. Há muito mais a dizer.
Notas:
Dados extraídos do livro “Gulag – Uma História dos Campos de Prisioneiros Soviéticos”, de Anne Applebaum, editora Ediouro, 2004, Prêmio Pulitzer 2004-Não Ficção.
Sobre o assunto leia também: Uma história do Gulag e O cárcere das almas.
