A narrativa abaixo é um resumo do que foi publicado no livro “Na Toca dos Leões”, de Fernando Moraes, editado em 2005 pela editora Planeta. O livro aborda, com detalhes inéditos, o seqüestro do publicitário Washington Olivetto, ocorrido em 11 de dezembro de 2001, em São Paulo, por um grupo de chilenos, argentinos e colombianos (com a comprovada conivência de brasileiros), participantes da luta armada em seus países. Um grupo que, pode ser dito, estava com sua mão-de-obra ociosa.

Fazia dez meses que esse grupo, que a Polícia calcula em cerca de 15 pessoas, monitorava todos os passos de Washington Olivetto. Os seqüestradores haviam se distribuído em seis endereços diferentes no Estado de São Paulo – casas e flats alugados na capital, no litoral e na estância climática de Serra Negra, a 152 quilômetros de São Paulo. Ao todo, as autoridades acreditam que o grupo investiu cerca de US$ 200 mil na operação, dinheiro gasto na manutenção da quadrilha, no pagamento do aluguel dos esconderijos e na compra de carros importados, armas, disfarces, máquinas fotográficas e notebooks novinhos em folha.

A partir de março de 2001 o bando se fracionou em grupos menores, que ficaram encarregados de vigiar todos os movimentos de Olivetto e da agência W/Brasil. Durante meses, todos os dias, em um plantão que costumava ir de 6 da manhã às 10 da noite, os seqüestradores se revezavam nas imediações da agência e no encalço do publicitário, onde quer que ele fosse. Washington teve seus passos seguidos hora por hora, dia por dia, e registrados em detalhes os restaurantes onde costumava almoçar e jantar, os lugares que freqüentava à noite, aonde ia e quando voltava, como se vestia, que veículo utilizava, com quem saía, tudo.

Os homens que seqüestraram Washington Olivetto haviam aparecido aos olhos do público, pela primeira vez, quase duas décadas antes. Já era noite fechada no dia 14 de dezembro de 1983, quando os 4 milhões de chilenos, desde Arica, ao norte, até Punta Arenas, no extremo sul, foram inesperadamente mergulhados na escuridão. As trevas haviam sido provocadas por atentado terrorista em uma ação planejada para anunciar o nascimento da Frente Patriótica Manuel Rodriguez (FPMR), organização de extrema-esquerda que prometia “juntar-se à luta do povo para derrubar Pinochet e seu bando de assassinos”.

Depois do apagão, a FPMR só voltaria a reaparecer em 1986, quando Mauricio Hernández Norambuena planejou assassinar Augusto Pinochet. O atentado foi batizado de “Operação Século XX”. Num domingo, 7 de setembro de 1986, Pinochet retornava a Santiago depois de um fim-de-semana em seu sítio, a 50 quilômetros de Santiago, em um Mercedes-Benz blindado, escoltado por outros seis carros, quando do alto de um morro, a poucos metros dos carros, entraram em ação três “unidades” da FPMR: 15 homens e 10 mulheres, armados com foguetes soviéticos RPG7, fuzis e granadas de mão. Cinco seguranças de Pinochet, todos militares, morreram no local e outros 10 ficaram feridos. Não obstante o veículo em que viajava ter recebido 38 tiros e ter sido atingido por um foguete, Pinochet e os demais ocupantes do carro saíram ilesos. Além de não conseguir matar Pinochet, os “rodriguistas” sofreriam outro sério revés, em 1986, quando a guarda costeira chilena apreendeu na praia de Carrizal Bajo, situada a 750 quilômetros ao norte de Santiago, um cargueiro que saíra da Nicarágua transportando 80 toneladas de armas destinadas ao grupo.

No ano seguinte, a FPMR seria a responsável pelo seqüestro do coronel do Exército chileno Carlos Carreño, libertado em São Paulo pelo próprio Norambuena sem que nada tivesse sido exigido por sua liberdade. Meses depois, a organização perderia dois de seus mais importantes dirigentes: Cecília Magno e Raul Pelegrin, mortos durante uma frustrada tentativa de tomada de um quartel no povoado de Los Queñes, a 190 quilômetros ao sul de Santiago.

O começo dos anos 90 encontrou os “frentistas” espremidos entre duas importantes mudanças políticas: a União Soviética deixara de existir e Pinochet fora substituído pelo civil Patrício Aylwin, eleito democraticamente pelos chilenos. A oposição armada perdera o sentido. Restava Cuba. Mas a ilha de Fidel Castro parecia mais interessada em reatar relações comerciais com o Chile de Aylwin. Isolados, sem ajuda externa, sem audiência entre os chilenos, os “frentistas” insistiam em agir em pleno renascimento democrático como se Pinochet ainda estivesse no poder. Em abril de 1991, Mauricio Hernandez Norambuena escolheu sua próxima vítima. O senador Jayme Guzman, da União Democrática Independente. Professor de Direito, ele fora um dos autores da nova Constituição chilena que convocou eleições livres desde que Pinochet não fosse punido.

No dia 1º de abril de 1991, Guzman foi tocaiado quando saía da Universidade Católica e morto com dezenas de tiros disparados por um comando da FPMR.

Os chilenos ainda não se haviam refeito dos atentados ao senador quando outra notícia desnorteou o país: no dia 2 de setembro, um bando de “frentistas” seqüestrou o jornalista Christian Edwards, filho de Augusto Edwards, dono do El Mercúrio, o mais tradicional jornal chileno. Planejado e executado pessoalmente por Norambuena, o seqüestro foi realizado, segundo suas próprias palavras, “para alavancar as finanças da Frente”. A expectativa dos cabeças da organização era obter “no mínimo um milhão de dólares”, dinheiro suficiente para manter a FPMR durante um ano, “sem expor seus militantes a riscos em assaltos menores”, conforme declararam vários deles à Justiça. Edwards passou 145 dias encarcerado, período em que o grupo jamais assumiu a autoria do crime – exatamente como ocorreria no caso de Washington Olivetto. O jornalista chileno só seria solto no dia 1º de fevereiro de 1992, depois que sua família pagou um resgate cujo valor oscilou, segundo as fontes, entre 1 e 8 milhões de dólares. Como já não havia mais no Chile qualquer movimento guerrilheiro a exigir tais recursos, nunca se soube o destino desse dinheiro. Poucas semanas depois da libertação, a Polícia prendeu cinco membros do grupo que seqüestrara Edwards. Norambuena só seria apanhado um ano depois. Condenado duas vezes à prisão perpétua, ele fugiu quando havia cumprido apenas três anos de cadeia, num isolamento da CAS – Cárcel de Alta Seguridad, uma fortaleza situada nos subúrbios de Santiago.

Norambuena entrou no Brasil em fevereiro de 2001, vindo não se sabe de que país, e instalou-se em um hotel em Santos. Nas semanas seguintes novos membros do bando, sozinhos ou em casais, chegaram a São Paulo. Eram Alfredo Augusto Canales Moreno, Marco Rodolfo Rodrigues Ortega, William Gaona Becerra, Maria Ligia Urrega Mejia, Karina Dana Germano Lopez, Miguel Armando Villabela, Pablo Alberto Muñoz Hoffmann e Raul Julio Escobar Poblete (o “comandante Emilio”). Além destes, a Polícia descobriu os nomes de outros participantes nos quais não conseguiria pôr as mãos: o chileno Luis Alberto Moreno Garcia, vulgo “ET”, um colombiano e uma argentina não identificados. Todos portavam documentos falsos, fazendo-se passar ora por turistas, ora por jornalistas chilenos ou argentinos. Além deles, a Polícia suspeita que o grupo recebeu o apoio de pelo menos um brasileiro – que seria o responsável por escrever as comunicações do bando para a família de Olivetto – e que mais um chileno tenha participado do seqüestro: Galvarino Sergio Apablaza, o “comandante Salvador”, principal líder da FPMR, preso em Buenos Aires em novembro de 2004.

Entre fevereiro e dezembro de 2001, eles se mudaram para dois apartamentos alugados (na rua Luiz Góes, em Vila Mariana, e na rua Santa Madalena, na Bela Vista) e para o flat Saint Paul, na rua Batatais, no Jardim Paulistano. Em março foram alugados um apartamento na praia do Gonzaga, em Santos, e uma casa de veraneio em Ilhabela, no litoral norte paulista. No dia 15 de agosto, alugaram uma casa na rua Kansas, no Brooklin, zona sul da cidade, adaptando-a para receber o refém. Só em janeiro de 2002, com Olivetto ainda no cativeiro, é que seria alugada a casa na estância de Serra Negra, onde o bando foi preso. Em quase todos os casos, os aluguéis eram pagos à vista, adiantadamente e em dinheiro – dólares ou reais. Em março, Norambuena, Marta, Villabela e Moreno se inscreveram na academia de ginástica Delaunay, na rua Leandro Dupré, também no Brooklin.

As comunicações entre os membros do grupo eram feitas por telefones celulares ou e-mails que eram disparados pela Jefatura – a “chefia”: Mauricio Norambuena..

Entre março e setembro o grupo selecionou hotéis em áreas de muito movimento e que pudessem receber os seqüestradores caso tivessem de abandonar os “aparelhos” em que viviam. A exigência para a seleção era clara: o hotel não podia ter câmeras e nem exigir passaporte para registro de estrangeiros, bastando algum outro documento de identificação.

Em seguida foi realizado um levantamento dos serviços de entregas em domicílio que poderiam ser utilizados para enviar mensagens durante as negociações para a libertação do refém: floriculturas, farmácias, pizzarias, casas de fast-food, padarias, empresas de encomendas expressas e de motoboys.

Na memória dos oito computadores apreendidos estavam registrados todos os quartéis e bases de operação da Polícia Militar existentes na região metropolitana de São Paulo, com endereços, telefones e, em alguns casos, horários e nomes dos oficiais de plantão. O mesmo foi feito também com a Polícia Civil: eles tinham também uma lista de todas as delegacias da Grande São Paulo, com endereço, telefone e nomes dos plantonistas.

Em setembro, a vigilância sobre Olivetto tornou-se mais rigorosa. A partir do dia 24 daquele mês, uma segunda-feira, Olivetto passou a ser vigiado o dia inteiro, da hora em que chegava à agência até voltar para casa. Em nenhum momento desse período Olivetto sequer suspeitou que estivesse sendo seguido. Não foi localizado também qualquer registro de vigilância nas imediações de seu apartamento, o que revela que desde o início os seqüestradores pareciam decididos a apanhá-lo perto do trabalho.

No final de setembro, a operação consumira cerca de R$ 130 mil e US$ 80 mil. Nos computadores, tudo era minuciosamente contabilizado nas duas moedas utilizadas pelo bando.

Considerando a dinheirama despendida no andamento do seqüestro, certamente terá ocorrido a eles uma questão: e se Olivetto sofresse um acidente, caísse doente ou deixasse o país de uma hora para a outra? Foi aí que começou a ser desenvolvido um plano alternativo – ou, como eles o chamavam em código, “H2”. Se algum imprevisto acontecesse com Olivetto, outro alvo foi escolhido: era “Nestor” ou “Orion”, nomes com que passaram a chamar o publicitário Nizan Guanaes, na época presidente do portal da Internet IG. Em meados de setembro, os seqüestradores já dispunham de um dossiê com informações pessoais sobre Nizan: endereços, nome da mulher e dos filhos, lugares por onde circulava.

No final de novembro, os oito computadores armazenavam mais de 6 mil páginas digitadas com todas as informações necessárias para colocar em prática a operação principal: seqüestrar “Átila”.

Um das últimas providências dos seqüestradores antes do crime foi tomada em dezembro, quando um dos homens do grupo esteve na Cardoso Automóveis, uma loja de veículos usados da rua Dr. Anhaia Melo, na zona sul. Depois de examinar vários veículos, escolheu um pequeno furgão Peugeot Partner branco, com a carroceria completamente fechada. Disse que era de Porto Rico, pagou US$ 15 mil e levou o veículo.

Quase tudo funcionou como planejado. Poucos minutos depois de arrancado do Ômega, Olivetto percebeu que o Peugeot que o transportava parou bruscamente (era um estacionamento lateral do cemitério do Araçá, a poucas centenas de metros da W/Brasil). Vendado e algemado, ele foi colocado no porta-malas de outro carro. Ao abandonar ali o veículo de transporte, os seqüestradores cometeram o primeiro erro, como se verá logo adiante.

O novo carro rodou por aproximadamente 40 minutos até entrar vagarosamente em algum lugar, aparentemente uma garagem. Olivetto foi retirado do veículo. Ninguém lhe dirigiu a palavra e nem lhe deu ordens. Ao retirar o capuz, Olivetto percebeu que estava dentro de um cômodo pouco maior que o interior de um guarda-roupas, com um metro de largura por 2,30 de comprimento e 2,40 de altura. Assim que a porta foi fechada uma pequena caixa acústica aparafusada no teto inundou o lugar com um som altíssimo, tocando músicas de um CD. As paredes e o teto eram revestidos de um plástico grosso. O chão era coberto também por plástico. No lado do fundo, oposto à portinhola, havia sido instalada uma lâmpada, protegida por uma arandela de metal semelhante a uma pequena gaiola, trancada à chave por um cadeado (para evitar que o seqüestrado quebrasse a lâmpada ou, em uma situação de desespero, pudesse tentar se eletrocutar). No teto havia uma entrada de ar e na parede ao lado da porta, próximo do chão, um pequeno buraco com 10 centímetros de diâmetro, por onde o ar era sugado para fora, mantendo a circulação no interior do cativeiro. Ao lado da porta de entrada, um pequeno olho m&aac ute;gico, semelhante à lente de uma minicâmera: era o visor através do qual Olivetto passaria a ser vigiado 24 horas por dia.

Foi ali que Olivetto passou os 53 dias seguintes, até ser libertado, em 2 de fevereiro de 2002.

Nas primeiras horas, em meio ao tumulto provocado pelo desencontro de informações, chegou a primeira notícia: o Peugeot branco havia sido localizado perto do cemitério e dentro dele havia um boné preto com um nome bordado em letras amarelas: “Polícia Federal”. Uma consulta telefônica aos arquivos do Detran revelou o nome e o endereço da loja onde o veículo fora adquirido, para onde seguiu um grupo de policiais do DEAS. Lá eles souberam que o furgão fora comprado à vista e em dólares por um homem de boa aparência que se dizia porto-riquenho.

No dia seguinte, 12 de dezembro, uma mulher de cabelos longos e óculos escuros comprou um buquê de rosas e mandou entregá-lo para Patrícia Viotti, esposa de Olivetto (exatamente como ocorreu quando do seqüestro de Abílio Diniz). Junto com as flores seguiu um envelope contendo o relógio de Olivetto e a mensagem. A mulher tinha leve sotaque castelhano. Após dias de angustiante silêncio dos criminosos, no dia 15 de janeiro uma Kombi de uma loja de materiais de construção entregou na residência de Olivetto duas latas de tinta Suvinil branca e junto com elas uma outra mensagem.

Ao ser informada da remessa das latas de tinta, a Polícia foi à loja de materiais de construção e soube que a compradora tinha sido uma mulher surda-muda de aproximadamente 40 anos, miúda, com os cabelos negros presos num coque. Os investigadores logo se lembraram que, quando do seqüestro do publicitário Geraldo Alonso, o comprador de um dos veículos também se fez passar por surdo-mudo.

Dezesseis dias depois, em 31 de janeiro, o entregador de uma farmácia deixou na portaria do prédio de Olivetto um pacote com produtos de beleza masculinos. Dentro dele havia uma mensagem insistindo na quantia anteriormente exigida de US$ 18,5 milhões. A Polícia descobriu que horas antes entrara na drogaria Farma Rede, na movimentada rua Teodoro Sampaio, no bairro de Pinheiros, uma mulher jovem, de cabelos longos e lisos, de óculos escuros e usando um colar cervical de espuma em volta do pescoço. Dirigiu-se ao balconista e perguntou, com forte sotaque hispânico se a farmácia fazia entregas em domicílio. Diante da resposta afirmativa, retirou alguns produtos da prateleira de cosméticos, pagou os R$ 110 da conta e entregou-lhe um envelope com o nome e o endereço de Patrícia, esposa de Olivetto (um colar cervical foi também utilizado por um dos seqüestradores do empresário Abílio Diniz, anotaram os policias). Como se saberia mais tarde, a encarregada de comprar os cosméticos foi a colombiana Martha Ligia Urrego Mejia, que no Brasil se fazia passar por “Maité Anália Belon”, mulher do também seqüestrador Alfredo Augusto Canales Moreno, chileno, que utilizava a falsa identidade de “Ruben César Sanchez”.

Em 1º de fevereiro, a 152 quilômetros de distância do cativeiro da rua Kansas, um corretor de imóveis da cidade de Serra Negra procurou a Polícia para dizer que na noite anterior notara movimentos estranhos em uma das muitas chácaras de veraneio existentes na estância turística. Ele namorava junto à cerca viva de uma casa ocupada por turistas e por entre a folhagem viu alguns homens e mulheres conversando em língua estrangeira e fumando maconha. Na garagem da casa podia-se ver um automóvel Vectra e uma perua Toyota Hilux, importada. Como Serra Negra havia sido palco, meses antes, de uma apreensão de 40 quilos de cocaína pura, o corretor de imóveis resolveu revelar suas suspeitas à Polícia. Munido de um mandado de busca, o delegado de Serra Negra, com uma equipe de 23 policiais militares e civis, às seis e meia da tarde daquele dia 1 de fevereiro fez soar a campainha da casa, sendo atendido por Mauricio Norambuena, de bermudas. Com ar de espanto ao se deparar com dois policiais militares armados, reagiu sem sobressaltos. Os policiais dentro da casa encontraram duas pistolas automáticas, uma delas com a insígnia do Corpo de Carabineiros do Chile, um pacote de dólares, uma gaveta repleta de perucas masculinas e femininas, bigodes e barbas postiças.

Já no DEIC, nas primeiras horas de sábado, com o mesmo ar arrogante de sempre, Norambuena disse que era dirigente de uma organização chilena intitulada Frente Patriótica Manuel Rodriguez; que receberia a metade do que viesse a ser obtido como resgate pela libertação de Olivetto e a outra metade, disse, iria para o MIR – Movimiento de Izquierda Revolucionaria, também chileno.

Norambuena surpreendeu os policiais com uma proposta: “neste sábado, às 11 da manhã, tenho um ponto telefônico marcado com um companheiro. Com uma ordem minha o senhor Olivetto será libertado incólume. Mas só depois de amanhã, segunda-feira, para que haja tempo de desmontar a operação”.

Para fazer o telefonema, porém, Norambuena exigiu que ele mesmo escolhesse um telefone público na cidade, aleatoriamente, para evitar que a ligação fosse gravada e o destinatário da chamada identificado pela Polícia. Ou seja: ele estava propondo trocar a liberdade de Olivetto pela possibilidade de fuga de seus cúmplices. Pouco antes das 11 horas da manhã, os policiais colocaram Norambuena num carro da Polícia. Rodaram por cerca de 10 minutos e, num dado momento, quando se aproximavam do bairro da Mooca, na zona norte, ele apontou um orelhão na calçada e avisou: é esse. Algemado e cercado de policiais armados, Norambuena discou um número (o qual, como havia sido acertado, não foi visto por ninguém mais) e pronunciou apenas três frases curtas, em espanhol, ouvidas pelos seus acompanhantes: “aqui fala o comandante Ramiro. Fomos presos. Libertem o cavalheiro”.

Mauricio Hernandez Norambuena, Alfredo Augusto Canales Moreno, Marco Rodolfo Rodriguez Ortega, Karina Dana Germano Lopez, Martha Ligia Urrego Mejia e William Gaona Becerra foram condenados em primeira estância a 16 anos de prisão. A promotora recorreu da sentença ao Tribunal de Justiça de São Paulo. Convidado pelos presos a continuar a defendê-los no TJSP, o advogado Iberê Bandeira de Mello queixou-se que até então só recebera, como honorários advocatícios, o custo de suas viagens ao Chile. Um representante da Frente Patriótica Manuel Rodriguez viajou ao Brasil para conversar com o advogado – ocasião em que se queixou de ter que pagar pela “cagada” feita no Brasil por seus compatriotas em nome da FPMR. Ao final, sem acordo, Bandeira de Mello renunciou à causa. Por unanimidade de votos o Tribunal de Justiça corrigiu a pena de todos para 30 anos de reclusão em regime fechado, sem direito a recurso.

Em agosto de 2004, o Chile solicitou a extradição de Norambuena para que cumprisse lá as duas penas de prisão perpétua a que está condenado, pedido denegado pelo Supremo Tribunal Federal.

Dias após a libertação de Washington Olivetto a Frente Patriótica Manuel Rodriguez publicou um editorial em sua página na Internet, afirmando expressamente “não ser autora da operação em São Paulo”. Essa afirmação reforça a certeza da Polícia paulista de que o bando estivesse agindo “por la libre”, ou seja, para obter apenas benefício pessoal, sem qualquer motivação política. Policiais experimentados asseguram jamais ter visto comportamento semelhante ao grupo de Norambuena (consumo de drogas e bebidas, exibicionismo, promiscuidade sexual e prática de tortura contra o refém) em qualquer operação de natureza política.

Após a prisão dos seqüestradores, a equipe de Criminalística da Polícia paulista descobriu que pouco podia fazer com os notebooks apreendidos com a quadrilha: estavam todos protegidos por uma senha desconhecida. Mesmo recorrendo aos mais sofisticados programas de desencriptação existentes, o máximo a que se chegou foi saber que a senha tinha 8 dígitos – que tanto podiam ser letras, números ou ambos. Após tentar todas as alternativas (inversão de datas de nascimento dos seqüestradores, combinação das iniciais dos nomes de seus pais e mães com nomes de ícones da esquerda, etc.), os técnicos do Instituto de Criminalística observaram que havia uma característica comum a quase todos os membros do bando: a paixão pelo futebol. Foi então que o pesquisador Onias Tavares de Aguiar perguntou a um de seus colegas: “Como é mesmo o nome daquele famoso clube de futebol chileno?” Foi Claudemir Santos quem respondeu: “Colo-Colo”.

Digitado o nome do time, surgiram nas telas dos micros mais de 6 mil páginas de anotações sobre todo o desenrolar do seqüestro.

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