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por  Heitor De Paola


Razão tinha o Presidente Lula quando disse que no Congresso tinha 300 picaretas e provavelmente confiando nisto é que se candidatou e exerce tranqüilamente o seu mandato, sem o risco de impeachment.

Um dos maiores sucessos do cineasta vienense Fritz Lang (Friedrich Christian Anton Lang) foi M, de 1931, erradamente intitulado no Brasil como M, O Vampiro de Düsseldorf. Duplamente errado porque o meliante não era vampiro, mas assassino de crianças e a ação não se passa em Düsseldorf, mas numa cidade qualquer não especificada da Alemanha. (Não obstante, usei o título acima por razões que espero se tornem evidentes). Naquela época Lang trabalhava no maior e mais bem equipado estúdio do mundo, o Universum Film Aktiengesellchaft, conhecido como UFA, onde já era um dos mais bem sucedidos cineastas com uma vasta filmografia que incluía o famoso Metropolis de 1926 que, apesar de ser uma crítica irônica ao totalitarismo, encantou a cúpula nazista levando o Ministro da Propaganda e Esclarecimento do Povo a oferecer a ele o controle da indústria cinematográfica alemã, em 1933. Como sua mãe, Pauline Schlesinger era judia convertida, alegou ser judeu e recebeu a famosa resposta de Goebbels: “Aqui quem decide quem é ou não judeu, sou eu”. Lang que não era idiota, abandona a Alemanha e vai para os Estados Unidos, contrabandeando uma imensa soma de dinheiro mas deixando para trás não apenas suas posses pessoais, mas também sua esposa, história de Metropolis. Imediatamente Goebbles cancelou a estréia de uma de suas melhores obras, “O Testamento do Dr Mabuse”. Thea acabou juntando-se ao Partido Nazista, tornando-se sua roteirista oficial.

A história de M é a de um psicótico assassino de crianças que assola uma cidade alemã, levando a população ao pânico e à histeria coletiva. Apesar das exaustivas investigações a polícia não consegue capturá-lo, nem mesmo identificá-lo. Mas a ação policial tem um efeito secundário: foi tão intensa que tornou quase impossível as atividades de escroques, batedores de carteira, prostitutas e, principalmente, do crime organizado. A canalha resolve, então, prendê-lo por conta própria e julgá-lo para tirar a polícia das ruas e voltar a exercer suas atividades criminosas “normais”. Um marginal o flagra e escreve um M nas suas costas o que leva à sua identificação, prisão e “julgamento”. As cenas do julgamento são hilariantes pelo tom de seriedade com que os marginais se conduzem.

Estas idéias me vieram à memória por ocasião das atividades das CPI’s do Congresso Nacional. Legítima assembléia de finórios, larápios do Erário, lavanderias de dinheiro e agenciadores de prostitutas, é claro que, quando um ou outro dos seus carrega demais na mão a polícia se vê forçada a agir, a imprensa mete o pau, a população exige punições e eles não têm saída: são obrigados a fazer um “julgamento de Düsseldorf” e mandar para casa os mais notórios para poderem continuar suas falcatruas em paz e voltarem às suas atividades ilegais “normais”.

Antes que me chamem de injusto, admito que há exceções, mas as mesmas ficam fora do esquema e pouco ajudam na hora de investigar a sério e punir os culpados – talvez por esprit de corps, não sei – mas não querem levantar muita lama do esgoto no qual também estão metidos. Exemplo? Nenhuma “exceção” exigiu ainda que as investigações se voltem para o Foro de São Paulo – admitido pelo próprio Presidente – e muito menos pela denúncia de verbas eleitoreiras originadas no narcotráfico e as ligações deste com Palocci e seus asseclas, apesar das denúncias da revista Veja sobre as primeiras já serem velhas de oito meses. Aceitam ficar andando em círculos da discussão dos caixas dois, já agora consideradas operações “normais” na vida pública, a ponto de ser admitido publicamente com imensa desfaçatez que a empresa do Vice recebeu um “reforço de caixa” dele oriundo. E, provavelmente, vai ficar por isto mesmo!

Razão tinha o Presidente Lula quando disse que no Congresso tinha 300 picaretas e provavelmente confiando nisto é que se candidatou e exerce tranqüilamente o seu mandato. Se, digamos, fossem só cem, o impeachment já teria sido proposto e aprovado em regime emergencial. Mas mensalão daqui, cartões de crédito dali, concessões radiofônicas de acolá e la nave va! E enquanto os 300 passam bem, continua o Lula-lá!

* * *

Fico espantado com o entusiasmo com que alguns analistas e articulistas liberais e/ou conservadores festejaram a cassação do José Dirceu como se fosse o resgate da honra do Congresso e do povo brasileiro, e não o desfecho de uma pantomima à la “Düsseldorf”, irrigada por outros fatores intrínsecos à ideologia e militância comunista.

Dentro do primeiro referencial o Congresso nada mais fez do que expulsar o mais notório dos escroques inter pares. O primeiro foi o Bob Jefferson por ter traído o esquema e prejudicado as negociatas de tanta gente. O aumento do superávit nas contas públicas, logo após suas denúncias, pode ser creditado à abrupta diminuição do fluxo dos “recursos não contabilizados” que passaram a ser contabilizados. Após seu julgamento e expulsão – com direito a aposentadoria para calar-lhe o bico – a quadrilha voltou a toda força porque, afinal, estava faltando muito leite das crianças! Agora é o Zé, pois as denúncias foram se acumulando e novamente ameaçaram o esquema “normal”: mande-se mais um embora e fica tudo como dantes no quartel de Abrantes. Mas como a população anda exigindo mais e mais – o que ficou demonstrado pelo resultado do referendo sobre desarmamento - pode-se esperar novos “julgamentos” a intervalos regulares para saciar a sede de sangue do distinto público, como espetáculos de ilusionismo. Pane et circensis!

Se o julgamento de Bob Jeff não me interessou a mínima, o de Dirceu é diferente, pois além da pantomima existem outros fatores que não me deixam esfuziante mas preocupado. Desde os primeiros dias das fanfarronadas do Bob Jeff este desfecho era uma das possibilidades previsíveis. Zé Dirceu foi selecionado desde ent ão para a possibilidade de ser o boi de piranha: aquele que é mandado na frente para atravessar o rio e enquanto as piranhas o atacam – bichos burríssimos por não verem que tem mais bois e até mais gordinhos – a tropa passa sem ser molestada. Já então o PT reagiu aos gritos de “sai daí Zé, pra não manchar a biografia de um homem honrado, o Presidente Lula”, emitidos de forma histriônica por Jeff, com a sua saída do Ministério.

Além disto, tal como no roteiro de Lang, além dos escroques avulsos e eventuais, que estão lá para “se arrumar”, o Congresso também foi tomado pelo crime organizado, a máfia do PT, que não tem intenção de se dar bem individualmente mas rouba para um projeto de poder, como eu já disse. Este grupo atua de forma tão diferente dos larápios comuns que os instrumentos de análise utilizados para os últimos falham completamente! Falta aos analistas citados um conhecimento mínimo de estratégia e tática comunistas. Uma das máximas desta estratégia e que tem funcionado às mil maravilhas ao longo do século passado é: O Partido é tudo! O militante é nada! Oferecido para ser imolado em sacrifício como bode expiatório, não restava a Dirceu senão aceitar o seu papel para expiar a culpa dos companheiros. A corrida ofegante ao STF era puro jogo de cena para que ficasse demonstrado que ele fizera tudo para “salvar sua honra e sua biografia”, pois só as pedras não sabiam que o STF só podia prolongar a agonia dos tolos que torciam pela sua cassação.

No entanto seu “sacrifício” não foi em vão – comunistas nunca pregam prego sem estopa – mas obedecendo a outra máxima da estratégia: Dar um passo atrás para dar dois à frente! Dirceu volta à atividade em que sempre se houve melhor, a do agitador político com ações que tangem a clandestinidade – freqüentemente ultrapassando esta fronteira, num jogo de ida e volta – agora sem as amarras dos cargos oficiais e da obrigação de prestar contas de seus atos em público. Para quem torceu e se ufanou com ela foi um tiro pela culatra: Dirceu, apesar das aparências, sai fortalecido do episódio. E Lula também!

Dirceu, porque está explorando muito bem sua condição de “vítima das elites”, comparando sua cassação com o banimento dos tempos da “ditadura” e até metaforicamente com fuzilamento, coisa a que deve estar acostumado não metaforicamente por sua amizade e cooperação com o fuzilador-mor, o Coma Andante do Caribe. Até mesmo sua ida para os Estados Unidos é parte do plano de arrecadar dinheiro das ONG’s ligadas ao Partido Democrata americano – Open Society (do George Soros), Fundações Ford, Rockfeller, Council on Foreign Relations, etc. Quem sabe até dos banqueiros patrões do Henrique Meirelles? É outra enorme ingenuidade acreditar que ele se sinta tolhido pela perda dos direitos políticos! Desde quando comunista respeita, a não ser de fachada, estas meras tecnicalidades burguesas?

Lula também ganha um poderoso argumento para a campanha da re-eleição por poder mostrar aos eleitores que é o “homem mais ético do País”, o que “não rouba nem deixa roubar”, “cortando até na própria carne” – seu amigo de todas as horas, seu “irmão”! – para o bem da moralidade pública! De quebra ainda vai citar o Genoíno.

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