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“Os que estiverem vivos invejarão tanto os mortos que desejarão a morte, mas a morte os enganará.” (Apocalipse 9:6)

De certa forma, os filmes de zumbis e mortos-vivos prepararam nosso imaginário para as imagens que acompanham este artigo. Tudo começa com um esverdeamento da pele, escamação, putrefação e apodrecimento dos tecidos. Surgem feridas que aumentam até o desaparecimento dos músculos e nervos que cobrem os ossos e o resultado são verdadeiros mortos-vivos agonizando até a morte certa. Em muitos casos, também os ossos são carcomidos por uma acidez mortificante que lembra as mais horripilantes produções cinematográficas. Estes são os efeitos da droga mais popular da Rússia, o krokodil, e suas imagens distribuídas pela internet nos evocam um profundo medo sobre o que pode vir da macabra combinação entre a indústria farmacêutica, o narcotráfico e as políticas de “redução de danos” apoiadas pela ONU em todo o mundo. O fato é que tanto a imprensa internacional quanto as organizações de saúde pelo mundo têm mostrado uma preocupação velada e feito um certo silêncio em torno do assunto.

krokodil2As drogas ilícitas já são uma epidemia na Rússia há bastante tempo – entre elas o ópio vindo da China, confirmando o temor milenar dos russos de uma invasão chinesa-mongol. Recentemente, um artigo do jurista e professor Walter Fanganiello Maierovitch publicado no Terra Magazine (talvez o único texto veiculado na mídia brasileira sobre o assunto), trouxe informações oficiais sobre o consumo de drogas no país do agente Putin. São 70% de jovens com menos de 30 anos, entre os 6 milhões de usuários de drogas do país. E a situação tem se agravado com a proliferação da nova droga chamada krokodil (crocodil ou coaxial), um substituto da heroína feito à base de desomorfina, uma substância cerca de 10 vezes mais forte que a morfina. A mistura é feita pelos próprios usuários em um processo simples e caseiro.

O artigo de Maierovitch dá ênfase no interesse da única rede de farmácias que produz os medicamentos com os quais são feitos o krokodil, que são o Terpincod, o Codelac e o Pentalgin. Acontece que a rede de farmácias Pharmastandard pertence aos filhos da ministra da Vigilância Sanitária, Tatiana Golikova com o ministro Viktor Khristenko, da pasta de Indústria e Comércio. Vladimir Kalanda, do serviço federal russo Antidrogas, diz que os efeitos imediatos do krokodil são semelhantes aos da heroína, mas o custo para o usuário é três vezes menor.

“Em 2005, poucas regiões do país usavam fármacos contendo codeína para preparar a desomorfina. Atualmente, o consumo da desomorfina se popularizou”, disse Kalanda em entrevista à mídia européia. Diferente da heroína, porém, os usuários do krokodil morrem num período médio de 2 anos.

A substância provoca necrose da pele, que fica enrugada e esverdeada. A acidez em face de certos insumos usados no preparo chega a dissolver o tecido ósseo.  As mortes decorrem de (1) envenenamento do sangue, (2) pulmonite, (3) miningite ou (4) putrefação. (Kalanda)


krokodil1Não é difícil perceber uma tendência ao barateamento e maior acessibilidade de drogas que se tornam cada vez mais pesadas e mortais. No Brasil, desde a popularização da maconha o consumo de cocaína veio crescendo e hoje o crack tem substituído a cocaína, sendo que é notadamente mais forte e mortal. A divulgação de vídeos e fotos dos efeitos de drogas como o krokodil tem sido perigosa e indesejável para aqueles que defendem a liberação das drogas e pretendem lucrar com isso, já que infunde uma impressão negativa à proposta que hoje tem alcance global graças à influência de grupos ligados a centros de pesquisa psiquiátrica que as desenvolve e até de seitas que as utilizam em cerimônias místicas. Muitas agendas, portanto, seriam atendidas com a liberação total das drogas hoje ilícitas.

krokodil3Além de movimentar mais de US$ 320 bilhões no mundo, a maioria das drogas possui comprovadamente efeitos esterilizantes no corpo humano, o que reduziria a população mundial e atenderia ao anseio de centenas de cientistas e engenheiros sociais que acreditam estarem acabando com a pobreza ao impedir o nascimento de pobres, atendendo também às expectativas motivadas pelas teorias eugenistas.

Os últimos relatórios da ONU têm demonstrado certa preocupação com o crescimento do uso de drogas sintéticas no mundo. Mas para combater o problema, os relatórios do órgão, estranhamente, sugerem maior repressão aos produtores das drogas simultaneamente à descriminalização do uso destas. Além é claro das políticas de redução de danos que são amplamente apoiadas em todo o mundo e já há casos claros de engajamento do próprio narcotráfico nestas campanhas.

No mundo inteiro crescem as campanhas pela legalização das drogas, concomitantemente às restrições ao uso de tabaco e álcool, usadas como artifício de credibilidade científica e demonstração de boa fé e preocupação com a saúde humana. Difícil é acreditar nesta boa fé depois de assistir aos vídeos disponíveis na internet sobre os efeitos do devastador krokodil.

(N. do E.: Imagens muito fortes.)

 

Mas de onde vem o interesse na liberação do uso de drogas de modo geral? Quais os reais motivos da defesa do uso para variados fins? Essa é uma pergunta difícil de responder e seria necessária uma ampla pesquisa de fontes e uma sequência de depoimentos de acesso ainda mais complicado. Uma das respostas, talvez a mais simples a partir do que temos à disposição, com certeza está na grande vantagem a uma possível governança global sobre cidadãos apáticos e sedados por prazeres mundanos e sensitivos, rebanho fácil e rentável a qualquer empreendimento de poder. Nisso também os apelos sexuais têm o seu papel, que torna o ser humano mais aberto às sugestões externas justamente por lhe faltar controle aos estímulos internos. Mas essa vantagem que o poder tem com as drogas mais fortes nos fornece uma pista a uma resposta ainda mais provável que se encontra um tanto escondida do público, embora tenha influência determinante nos rumos globais. É na possibilidade psicológica da alienação total das multidões que entra um dos fatores hoje especialmente determinantes no curso das políticas sociais globais: o poder crescente das seitas.

Peter Kreeft, autor do livro Como Vencer a Guerra Cultural, afirma que a religião mais popular dos Estados Unidos hoje não é mais o cristianismo, mas a chamada “espiritualidade”, ou seja, o arranjo sincrético de variadas formas espirituais muitas vezes contraditórias, mas, por definição, anticristãs. As milhares de seitas espalhadas pelo mundo hoje têm uma origem comum, o gnostícismo pré-cristão, especificamente aquele que se aliou ao poder durante o período iluminista e que orientou a maioria dos rumos científicos, por meio da figura do alquimista, expressa na metáfora gnóstica das luzes.

Milhares de seitas ocultistas gnósticas hoje se utilizam de drogas em suas cerimônicas. O Santo Daime é o exemplo mais conhecido e se engana quem crê que a sua abrangência se restringe ao Brasil. Composto da folha de chacrona (psychotria viridis), cipó jagube (banisteriopsis caapi), água e, em alguns casos, anfetamina, a ayahuasca “eleva” o nível de consciência dos praticantes e os “aproxima de Deus”, segundo os seus líderes. A ayahuasca é usada por muito mais gente do que se imagina, assim como a participação de celebridades nacionais e internacionais no culto do Santo Daime. A morte do cartunista Glauco no ano passado levantou a questão da seita na mídia, mas sem grandes aprofundamentos.

O Santo Daime é proibido em quase todos os países do mundo, o que atrai grande número de adoradores a países como o Brasil, movidos pela curiosidade acerca do chá tropical que aqui é liberado. Em muitos casos, é utilizado acrescido de anfetamina o que torna o usuário fatalmente vítima de problemas psíquicos, como a paranóia e esquizofrenia.

O perigo das drogas aliadas às seitas místicas espalhadas pelo mundo tem motivado a criação de institutos de pesquisa e investigação sobre o assunto. Na França, a União Nacional das Associações de Defesa das Famílias e Indivíduos Vítimas de Seitas (http://www.unadfi.org) alertou recentemente que as drogas não só estão presentes em todas as seitas esotéricas como são parte essencial da “espiritualidade” trabalhada por elas. Em outras palavras, o uso de drogas é o que mantém crível a proposta de muitas seitas. Segundo muitos teóricos das próprias seitas, a droga possibilita uma abertura ao transcendente e uma maior compreensão das informações proveniente das “dimensões superiores”, o que o aproxima das aspirações gnósticas e esotéricas em geral. O uso de drogas estimula no usuário uma abertura, de fato, a teorias e explicações que o seu efeito confirme, daí o crescimento proporcional do uso de drogas e de seitas pelo mundo. Estas últimas em grande parte sustentadas com dinheiro vindo diretamente do tráfico de drogas.

Como sabemos, um dos elementos do gnosticismo é a busca do paraíso terrestre, um mundo extra-temporal com acesso interior, em que reina o prazer infinito e o conhecimento da ciência ou vontade divinas. Um exemplo da relação entre drogas e gnosticismo é o famoso poema de Samuel Taylor Coleridge, onde o poeta inglês narra um sonho que teve após dormir sob efeito de ópio e ter visões de um castelo paradisíaco e repleto de prazeres pertencente a Kubla Khan, antigo governante mongol. O fato deste sonho coincidir, mais tarde, com a descoberta das prováveis ruínas do suposto templo, sugeriram que Coleridge tivera uma visão extra-temporal ou tivera visitado outra dimensão a partir do uso da droga.

No livro The Diary of a Drug Fiend, Aleister Crowley cita a experiência de Coleridge. Crowley foi o bruxo criador do Satanismo moderno, se julgava a Grande Besta e é ainda popular entre celebridades da política, das artes e ciências em todo o Ocidente. Ele difundiu o uso de drogas como parte de um processo de libertação espiritual. Crowley foi um dos mais perversos personagens do século XX, era viciado em quase todo tipo de droga, principalmente heroína, e levou isso até seu leito de morte. Era aficcionado por oráculos chineses e dizia incorporar deidades orientais. A cultura popular o transformou em um ícone com grande poder de fascinação entre os jovens.

Yuri Bezmenov, ex-agente da KGB, conta que a agência manifestava grande interesse em exercer influência entre líderes de seitas indianas que recebiam constantes visitas de celebridades americanas. A KGB tinha objetivos claros quanto à influência destas doutrinas na sociedade ocidental justamente pelo caráter de alienação que elas levavam aos cidadãos. Em um contexto de Guerra Fria, não impressiona que o mundo ocidental tenha sido invadido por cultos orientais e esotéricos em suas formas mais toscas e deslocadas do seu sentido original. O objetivo era o enfraquecimento da moralidade cristã, grande empecilho ao avanço do comunismo.

A busca pela transcendência e pelo conhecimento das razões e dos sentidos dos mundos espirituais passou a ganhar certo prestígio no século XX, a partir da contracultura, com o resgate de nomes como Crowley, Spare e Blavatsky e sua inclusão na cultura pop, por conta da articulação das seitas gnósticas. As experiências extra-corpóreas, as visões de anjos e interações com entidades, sensações que remetem a um relacionamento direto com os mundos imateriais e outras dimensões de existência, finalmente deixaram de ser exclusividade dos mestres, dos sacerdotes e dos bruxos. Qualquer jovem, desiludido com o mundo que o cerca e com a imposição de padrões comportamentais dos quais ele discordarva, podia, afinal, conhecer o maravilhoso mundo das descobertas transcendentes e das experiências com criaturas verdes e espíritos de luz, mediante o simples e banal uso de uma droga entorpecente facilmente acessível, de consumo incentivado por meio da conduta de artistas comprovadamente orientados por mestres de seitas.

(Continua).

 

Cristian Derosa é jornalista.



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