| 08 Agosto 2012
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Cultura
Além de serem campeões absolutos do aprisionamento e venda de escravos, os verdadeiros criadores do tráfico escravagista organizado em escala continental e transcontinental, os muçulmanos foram também os pioneiros na criação de doutrinas racistas.
Os leitores com QI médio ou superior devem ter percebido que, após uma longa e necessária introdução pedagógica, eu estava começando a contestar os argumentos do Sr. Moreira um a um, metodicamente, pela ordem em que se apareciam nos artigos dele. Era minha intenção continuar a fazê-lo aqui, mas o Sr. Moreira, que se concedeu o prazo de cinco longos meses para escrever suas cento e tantas páginas contra mim, não agüentou esperar uma ou duas semanas até que eu acabasse de dizer o que tinha a dizer. Num acesso de ejaculação precoce, despejou na internet um documento dos mais singulares, no qual, sem nada refutar eficazmente das respostas iniciais que lhe apresentei, se bate ardorosamente contra as que ainda não apresentei e que tencionava apresentar a partir deste capítulo. Ninguém pode negar ao Sr. Moreira a originalidade da sua performance: nos anais da retórica universal não consta, antes dele, nenhum exemplo de debatedor que partisse logo para as tréplicas sem esperar pelas réplicas. É uma ilustração perfeita da ordenação intelectual que se adquire nas universidades, tão contrastante com a desordem que impera nas cabeças anárquicas dos “sem diploma”.
Da série de argumentos do Sr. Moreira, eu só havia contestado dois: o retrato monstruosamente falsificado que ele fez da minha carreira e das minhas idéias políticas e o equivalentismo quantitativo que ele criou entre o tráfico escravagista islâmico e o ocidental. Ao primeiro respondi com a transcrição de artigos meus que demonstravam, acima de qualquer possibilidade de dúvida, a atitude de justo equilíbrio, e até de simpatia, com que eu falava da civilização islâmica, provando que a tentativa de me pintar como um fanático antimuçulmano era, mais que uma improbidade intelectual, um crime de difamação puro e simples. Contra o segundo, mostrei que o “empate técnico” alegado pelo Sr. Moreira era pura ficção, por quatro razões (sem prejuízo de outras que viriam a ser apresentadas depois). Primeira: o número de escravos transportados para os países árabes e para o Ocidente não foi de onze milhões de cada lado, mas, segundo as fontes mais atualizadas, foi de nove a dez milhões para cá e de quinze a dezessete milhões para lá. Segunda: como o aprisionamento de escravos entre os séculos XVI e XVIII foi monopólio dos árabes e de algumas tribos africanas, e como obviamente o escravo não se torna escravo quando é vendido, mas sim desde o momento mesmo em que é aprisionado, torna-se claro que praticamente todos os que foram vendidos aos europeus tinham sido, antes disso, escravos de muçulmanos. Estes aparecem, portanto, como os maiores tiranos escravagistas de todos os tempos, responsáveis pelo aprisionamento e escravização de algo entre 25 e 28 milhões de pessoas, das quais venderam aproximadamente um terço ou pouco mais aos europeus. Terceira: além de serem campeões absolutos do aprisionamento e venda de escravos, os verdadeiros criadores do tráfico escravagista organizado em escala continental e transcontinental, os muçulmanos foram também os pioneiros na criação de doutrinas racistas que justificavam a escravização dos negros por conta da uma pretensa inferioridade natural que chegava a excluí-los da espécie humana. Essas doutrinas eram voz corrente entre as elites árabes desde pelo menos o século XI, setecentos anos antes de se disseminarem na Europa, onde só penetraram, aliás, no preciso momento em que se levantavam, para enfrentá-las vitoriosamente, as primeiras idéias abolicionistas, às quais o mundo islâmico permanece imune até hoje. Quarta: cruzar o oceano num porão infecto de navio, amontoados no chão entre ratos e baratas, foi para os escravos que vieram para a América uma experiência indescritivelmente cruel, mas como compará-la à de atravessar a pé um continente inteiro, amarrados uns aos outros por ferros e cangas que os rasgavam e sangravam, sob o sol esturricante e o chicote do feitor? A mortalidade nas caravelas era alta, mas a do tráfico muçulmano era incomparavelmente maior – sem contar o fato de que, para a maioria dos escravos machos, ser levados para as nações árabes em vez de atirados ao porão de um navio português ou espanhol equivalia a uma condenação à morte, já que os esperava ou a execução sumária (os árabes estavam interessados era em mulheres e crianças), ou a castração, da qual, segundo Richard Burton, sobrevivia um para cada duzentos, ou, na mais branda das hipóteses, o alistamento obrigatório num corpo de exército, logo enviado para morrer no Exterior.
Que é que o Sr. Moreira respondeu a tudo isso? Nada. Só o que ele fez foi jogar na minha cara, com ares triunfantes, a objeção bocó: “Olavo não explicitou no vídeo, ou na primeira réplica escrita, o que aquelas obras acrescentam a seu favor. Será que N'Diaye ratifica que o Islã escravizou três vezes mais do que a Europa?” A resposta é que, embora o sr. Moreira agora volte atrás na sua confissão de monoglossia e se proclame um leitor proficiente em língua francesa, ele não a conhece o bastante para compreender vídeos franceses sem legenda, em vários dos quais, entre aqueles que lhe recomendei, o prof. Tidiane N’Diaye (que ele insiste em chamar “Tidiene”) e outros estudiosos afirmam categoricamente que, dos escravos aprisionados pelos muçulmanos – isto é, praticamente a totalidade dos africanos reduzidos à condição escrava --, foram levados para as nações árabes de 15 a 17 milhões, e os restantes vendidos aos europeus. Tendo se formado numa universidade brasileira, onde é normal 38 por cento dos alunos não saberem nem ler nem escrever, é também normal que o Sr. Moreira tenha extrema dificuldade em compreender que um terço é a terça parte, que um todo dividido por três tem três vezes o tamanho de cada uma das partes e que um total de aproximadamente 27 ou 28 milhões é mais ou menos três vezes aquela quantidade que medeia entre nove e dez. Ele jamais acreditará nisso enquanto o Prof. N’Diaye não vier pessoalmente lhe mostrar as contas no quadro negro.
Desviando-se dessa dificuldade quase sobre-humana, o Sr. Moreira preferiu dedicar-se a duas outras coisas:
Primeira: contestar argumentos que ainda não apresentei (por exemplo sobre a cristianização da Inglaterra ou sobre o número preciso dos escravos africanos castrados), o que, de fato, é bem mais fácil e cômodo do que responder aos que apresentei.
Segunda: demonstrar que sou um doido varrido, valendo-se, para isso, dos diagnósticos que me foram passados por dois especialistas na matéria, autoridades científicas abalizadas e respeitadíssimas, que não são outros senão os srs. Rodrigo Constantino e Paulo Ghiraldelli.
Do primeiro ele transcreve um parágrafo em que o conhecido blogueiro me dá como louco paranóico por acreditar que o Foro de São Paulo domina politicamente o continente latino-americano, que a KGB arquitetou a transição soviética de modo a poder continuar mandando depois dela, que as novelas da TV Globo favorecem a revolução cultural gramsciana e que o movimento gayzista exerce poderosa influência atualmente. Confirmo plenamente o diagnóstico: acredito plenamente em cada uma dessas coisas e portanto sou maluco mesmo. Uma pessoa normal, como o sr. Constantino, acredita que a maior organização política existente na América Latina, cujos partidos-membros estão no poder em doze países, não manda nada e é apenas um clube de velhinhos; que a KGB foi destruída junto com a URSS e nem existe mais; que as novelas da Globo transmitem valores cristãos e conservadores, quase competindo com O Milagre de Fátima e Marcelino, Pão e Vinho; e que o gayzismo não arrisca mudar nada no nosso direito civil, na educação nacional e na estrutura da família brasileira. Infelizmente não posso alcançar um padrão tão alto de equilíbrio mental. Os fatos não o permitem, e eu não largo a mania de investigá-los em centenas de livros e trabalhos acadêmicos dos quais o sr. Constantino, sempre cioso de ostentar normalidade, se mantém a uma saudável distância.
O segundo é um conhecido pornógrafo, inventor do socialismo conjugal, mediante o qual ele reparte generosamente com o restante da espécie humana os atrativos eróticos da sua digníssima esposa. Como num de meus programas eu fizesse piada da porção glútea que ele exibia num vídeo da internet, dizendo-me traumatizado ante a visão daquela coisa digna de figurar num quadro de Hieronymus Bosch, o Sr. Ghiraldelli acreditou que fosse trauma de verdade e passou a explicá-lo como sintoma da atração irrefreável exercida sobre a minha pessoa pelo seu peludo orifício anal, que por motivos ignorados ele imagina ser um objeto de desejo mais ou menos como os peitos da srta. Kim Kardashian.
Um dos momentos culminantes na carreira filosófica do Sr. Ghiraldelli foi aquele programa de TV em que, convidado pela sua esposa e co-apresentadora a comentar a ilustração de um vaso grego em que um guerreiro aparecia tocando os genitais de seu companheiro, o “filósofo de São Paulo” protestou veementemente contra essa imprecisão histórica, exclamando: “Tocando os genitais coisa nenhuma, ele está é mexendo no pau do sujeito.”
O conceito de que o sr. Ghiraldelli desfruta nos meios jornalísticos pode ser avaliado pelos seguintes pareceres publicados na coluna de Luís Nassif, os quais não vêm de estudantes anônimos esperneando pela internet, mas de homens adultos, profissionais da mídia e do ensino universitário:
“Temos conhecimento de sua biografia de exibicionismo e acinte para com pessoas criteriosas e produtivas. Sua arma é o achincalhe e a exposição falaciosa.” (César Nunes.)
“Depois veio a fase mais picante quando passou a assumir posições sexuais desconcertantes. A gota d'água veio num artigo onde ele defendia tapas, isso mesmo, palmadas na mulher durante o sexo. Proibi o recebimento de seus posts na minha caixa de mail e nunca mais tive informações da figurinha carimbada. É um caso psiquiatrico a ser estudado com cuidado.” (Marcelo Castro.)
“É do tipo que faz tudo por exposição, uma peça útil à mídia de esgoto.” (João Chaves.)
“Essa coisa chamada Ghiraldelli, além de manchar fatalmente a classe daqueles que fizeram a mesma faculdade, mancha todos os demais membros de sua própria família e família da esposa, onde obviamente as pessoas são decentes.” (Ariston Álvares Cardoso.)
“É um charlatão, quer fazer da filosofia uma terapiada do liberalismo moderno, uma junção de individualismo com o pior da filosofia ‘espiritual’ -- um total idiota.” (Guilherme Cardoso de Sá.)
O parecer científico do sr. Ghiraldelli sobre o meu estado de saúde mental inspira-se no episódio que assim relatei em 16 de outubro de 2009 (v. http://www.olavodecarvalho.org/textos/091016.html):
“Plágio, no sentido oficial do termo, foi o que veio logo a seguir: o sr. Paulo Ghiraldelli, colunista do Estadão que por motivos insondáveis se autodenomina ‘o filósofo de São Paulo’, com ênfase no ‘o’ (como se não fossem dessa cidade os quatro maiores filósofos que o Brasil já teve, Mário Ferreira dos Santos, Miguel Reale, Vicente Ferreira da Silva e Vilém Flusser), lançou na praça uma coleção de livros com título obscenamente copiado da minha ‘História Essencial da Filosofia’.
Esse cidadão é aquele mesmo que, contestando fosse de Platão uma afirmação de Platão por mim reproduzida em artigo de jornal, continuou insistindo na negativa mesmo depois que lhe exibi o original grego da frase tal como constava da edição Loeb Classics, cuja idoneidade filológica jamais foi posta em dúvida -- de modo que me vi derrotado no debate por inépcia invencível do adversário, saindo dali humilhado e cabisbaixo, a meditar sobre o ensaio clássico de William Hazlitt, ‘As desvantagens da superioridade intelectual’.
Ele é também aquele mesmo que negou com veemência fosse dele o traseiro pelado e peludo exibido, num vídeo do Youtube, ao lado do corpo nu da sua digníssima, sem nos explicar jamais quem seria então o proprietário daquela porção glútea, nem muito menos a razão, se alguma houvesse, da presença desse misterioso personagem em tão íntima cena familiar.”
Tão logo dei ciência aos meus leitores daquele estranho triângulo erótico, o sr. Paulo Ghiraldelli viu que tinha se dado mal e retirou o vídeo do ar. Passado algum tempo, apostando no esquecimento público, saiu alardeando que o vídeo nunca existira, que eu é que tinha inventado tudo. O sr. Moreira, com aquela probidade intelectual de historiador adestrado na técnica da crítica de fontes, acreditou logo na conversa e a reproduziu no seu blog como prova fidedigna de que padeço de alucinações e vivo num mundo paralelo.
O que nem o sr. Ghiraldelli sabe nem o sr. Moreira logrou jamais imaginar é que o vídeo, com bunda e tudo, não foi escamoteado da internet antes de ser visto por centenas de pessoas, cujo testemunho está bem guardado em páginas do Orkut que, para a infelicidade dos dois patetas, tive a prudência de copiar em print screen. O material está à disposição de quem o deseje, e a prova de que o vídeo foi removido ainda está no youtube: http://www.youtube.com/watch?gl=BR&hl=pt&v=0ZpJuuN5i6Y. Minhas alucinações, como se vê, são públicas e coletivas.
A essa altura, minha caixa postal e minha página do Facebook viram-se inundadas por um caudal de protestos indignados, que exigiam a interrupção imediata do meu debate com o sr. Moreira, que só servia, afirmavam, para me expor às conseqüências incontornáveis de esmurrar um cocô. Talvez os missivistas tenham razão, mas confesso que não posso encerrar esta série de artigos sem trazer ao conhecimento dos meus leitores o parágrafo mais sublime do sr. Moreira, aquele em que ele defende seu direito de continuar usando estatísticas dos anos 70 em detrimento das mais recentes. Diz ele:
“É certo que nunca li Tidiene (Tidiane, porra!) N'Diaye ou qualquer um dos autores citados, o que não serve como prova de ignorância. Uma graduação em História tem cerca de sessenta disciplinas. Seria impossível, salvo na presença de um orçamento milionário, adquirir todas as obras necessárias à atualização em todos estes campos, e mais ainda realizar todas estas leituras.”
O sr. Moreira, com essas linhas imortais, acaba de inventar um novo preceito metodológico que certamente virá a ser adotado por todos os historiadores do mundo. Esse princípio pode ser assim resumido: Quando você não tem dinheiro para adquirir as informações mais recentes, as antigas valem como contestação cabal destas últimas.
Ainda mais curioso é que, gabando-se tanto das vantagens do ensino universitário, o sr. Moreira não tenha se dado conta de um dos mais belos serviços prestados pelas universidades, o qual chega mesmo a constituir uma das razões fundamentais da sua existência: o serviço de intercâmbio entre bibliotecas acadêmicas, que põe à disposição até dos estudantes e professores mais pobrezinhos, a preço módico ou nulo, a informação atualizada sobre o que bem desejem conhecer. Os “sem diploma” como eu, é que temos de pagar os livros do nosso próprio bolso.
