| 15 Setembro 2012
Artigos -
Cultura
A Vide Editorial lança Muita Retórica Pouca Literatura, coletânea de ensaios escritos pelo crítico literário Rodrigo Gurgel, colunista do MSM.
Deve o leitor se lembrar da reivindicação de Croce: que a história da literatura seja feita por autores, não por “épocas” ou “estilos”. Este Muita Retórica Pouca Literatura não é historiográfico, mas sob aquele aspecto é livro croceano, e livro deliciosamente “impressionista” – graças a Deus.
O título deste conjunto de ensaios poderia denunciar uma tese; denuncia, antes, a impossibilidade de quaisquer “teses” em grande parte de nossa literatura: o gosto pelo verbo fácil a par do desgosto de imaginações pouco poderosas, entre os que fundaram nossa prosa literária, concorrem para a formação de um vício da nação – o cosmetismo cultural, de que o formalismo desvairado e inculto de nossos romances mais recentes são o último rebento.
O drama, aqui, encontra-se no embate, amiúde velado, entre as figuras-tipo José de Alencar e Manuel Antônio de Almeida. Porque não teve descendência que confessasse sua paternidade, Memórias de um sargento de milícias, mostra Gurgel, merece revisita para que nele reencontremos algo de muito machadiano, o que se insere numa saudável – porém nem sempre prazerosa de se ler – genealogia da sensibilidade nacional.
Destacam-se aqui, ainda, a prosa de João Francisco Lisboa, esse Juvenal brasileiro; do reacionário Eduardo Prado; da pouco conhecida memorialística de Taunay. E tem ainda Gurgel o topete de nos apontar o que há de enfado em Dom Casmurro e explicar por que Canaã é “o mais pedante romance brasileiro”.
Que este livro nos reavive o bom costume, hoje fora de moda, de nos estapearmos furiosamente pela leitura direta de nossos clássicos. Amen.
Ronald Robson
Rodrigo Gurgel fala sua nova obra:
Um livro contra a corrente
Muita retórica – Pouca literatura (de Alencar a Graça Aranha) reúne vinte ensaios publicados, entre 2010 e 2012, no jornal Rascunho, numa série, ainda não terminada, em que me proponho a reler os prosadores da literatura brasileira.
Minha leitura segue, de maneira proposital, parâmetros em grande parte desprezados na atualidade, quando a crítica literária não só difunde, mas também sofre dos três males apontados por Tzvetan Todorov: formalismo, niilismo e solipsismo. Trata-se, portanto, de uma leitura à contracorrente.
Dispus os ensaios cronologicamente, como convém a um trabalho que, embora crítico e analítico, também se apresenta sob a perspectiva da história. E cada autor eleito comparece com uma obra, escolhida por seu caráter paradigmático, sua capacidade de representar o conjunto da produção do escritor.
Entre os autores analisados encontram-se os nomes clássicos de José de Alencar, Manuel Antônio de Almeida, Raul Pompeia, Machado de Assis, Graça Aranha etc. Mas não me ative, apenas, aos ficcionistas; e também reli grandes prosadores esquecidos – como João Francisco Lisboa, Joaquim Felício dos Santos, Eduardo Prado – ou ainda hoje lembrados (por exemplo, Nabuco e Taunay).
Como afirma José Carlos Zamboni no prefácio Um crítico contra a corrente, “Rodrigo Gurgel não teme o julgamento, que deve completar obrigatoriamente a análise. Não salva nem condena em bloco, preferindo exercitar a difícil arte de fazer justiça; e, por isso, todos esses autores [...], mesmo os que mais sofrem com suas bordoadas, acabam resguardados num aspecto ou noutro”.
Adquira na biblioteca do Seminário de Filosofia o novo lançamento da Vide Editorial, Muita Retórica, Pouca Literatura, coletânea de artigos de Rodrigo Gurgel.

