O sr. Patschiki não é um historiador nem um cientista social: é um crente comunista que se mantém a uma profilática distância de toda leitura que possa abalar a pureza da sua fé.


O termo “teoria da conspiração” pode ser usado como um rótulo infamante ou como um conceito científico. No primeiro caso, ele tenta dar ares de coisa demencial a qualquer denúncia bem comprovada que, para uma platéia leiga, soe um pouco estranha à primeira audição. No segundo, como ensina Norman Cohn, ela expressa um conjunto de traços objetivamente verificáveis.

O mais saliente desses traços é o uso de analogias e coincidências fortuitas como “provas” de unidade intencional por trás de discursos separados e inconexos vindos de agentes que se ignoram uns aos outros. Mesmo a mais vaga e frouxa afinidade de idéias é tomada aí como evidência de uma ação político-partidária organizada.

Associada a esse traço vem a uniformidade da rotulação ideológica prévia e pronta, destinada a costurar num arremedo de explicação o repertório das informações abrangidas, evitando-se cuidadosamente a confrontação com hipóteses explicativas diversas ou antagônicas, condição sine qua non de qualquer investigação séria. A farsa pode ser e geralmente é camuflada sob uma pletora de fatos e documentos -- aparentemente concordantes desde que amoldados sem discussão à clave interpretativa escolhida --, assim como pelo uso abundante de algum jargão acadêmico que dê ares de respeitabilidade ao que não passa de uma explosão irracional de ódio difamatório. Erros e mentiras de detalhe, bem espalhados ao longo do discurso, preenchem os rombos da explicação geral.

Compreendida essa distinção, a tese do sr. Lucas Patschiki, Os Litores da Nossa Burguesia: O Mídia Sem Máscara em sua Atuação Partidária (2011), é, no sentido mais técnico e estrito, uma teoria da conspiração.

No intuito de fazer crer que o jornal eletrônico Mídia Sem Máscara é uma perigosíssima organização fascista internacional decidida a consolidar a opressão burguesa e imperialista sobre a pobre classe trabalhadora, o sr. Patschicki usa dos seguintes expedientes:

1. Arrola uma vasta bibliografia teórica, toda ela marxista, que repete a velha e surrada noção comunista do fascismo como “um fenômeno surgido com o imperialismo, cuja função política e social primária é o de reorganizar o bloco no poder de maneira brutal durante a crise aberta, para a manutenção e reprodução da sociedade de classes”. Que haja dois erros de português já nessa primeira declaração de princípios não deve nos surpreender – eles são abundantes em todo o texto, provando que a condição de semlietrado não é obstáculo a uma carreira acadêmica neste país --, nem deve nos desviar do essencial: o autor ignora ou exclui toda a imensa bibliografia não marxista, sobretudo mais recente, que impugna e reduz a pó essa definição do fascismo. O sr. Patschiki não é um historiador nem um cientista social: é um crente comunista que se mantém a uma profilática distância de toda leitura que possa abalar a pureza da sua fé. Tão inusitada é para ele a experiência dessa leitura, que, examinando o material do Mídia Sem Máscara, ele não pôde se furtar a “sentir náuseas um sem-número de vezes”. Com isso ele reproduz e exemplifica um fenômeno que eu já havia observado desde 2002, “a tendência incoercível (da militância comunista) de reagir às minhas palavras antes mediante uma agitação confusa de sensações ruins do que por qualquer elaboração intelectual... Quando as pessoas não têm como refutar uma idéia, jogam contra ela a expressão hipertrofiada de suas reações psicofísicas: ‘Me dá nojo’, ‘Me dá ânsia de vômito’ etc... ‘Ensino universitário’, no Brasil de hoje, consiste em adestrar a juventude nessas reações automatizadas.” O sr. Patischiki foi, nesse aprendizado, dócil como um cãozinho de circo: os reflexos condicionados comunistas impregnaram-se direto no seu aparelho digestivo, sem passar pelo seu cérebro.        

2. Ao longo de todo o seu extenso trabalho, ele não encontra espaço para discutir ou refutar nenhuma afirmação minha ou as de qualquer outro colaborador do MSM. Limita-se a reiterar que são fascistas, dando sempre e invariavelmente como prova disso o fato de que convergem na sua oposição ao comunismo. Para isso ele dá por pressuposta, é claro, a redução de todo anticomunismo ao fascismo, coisa que ele aprendeu com seus orientadores, comunistões moldando a cabeça de um comunistinha. Assim, por exemplo, ele nem de longe examina criticamente a minha descrição da estrutura tripla do poder globalista no mundo; apenas proclama que ela é um disfarce do bom e velho imperialismo americano, e passa adiante todo pimpão, sem ter a menor consciência de que o cãozinho acumula assim as funções de palhaço.

3. É quase inacreditável que, na investigação sobre uma publicação atual e atuante, o autor não tenha nem mesmo tentado entrevistar o fundador dela, nem seu editor executivo, nem qualquer de seus colaboradores, que poderiam ter corrigido inumeráveis erros de informação nascidos da interpretação fantasiosa dos documentos escritos. Um desses erros já falsifica na base as dimensões da publicação estudada: “O MSM foi criado em 2002... Naquela primeira edição, contou com a participação de cinqüenta e três colunistas...” Cinqüenta e três? O MSM não tinha nenhum colunista: limitava-se a reproduzir artigos extraídos de outros blogs. Era produto doméstico, criado inteiramente por mim, por minha esposa Roxane e por minha filha Maria Inês, com orçamento nulo. Nossa originalidade foi apenas a de reunir num site único materiais que estavam espalhados pela internet. A ampliação imaginária do tamanho do empreendimento é uma condição prévia das interpretações paranóicas que Patschiki lhe dá em seguida.



Publicado no Diário do Comércio.


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