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Eleger a busca pelo prazer como causa final da existência é um poderoso elemento desagregador da personalidade.


Quanto mais uma palavra é utilizada, mais epidérmico torna-se seu significado. Sua única serventia é encobrir, mal e porcamente, a turva alma de seu repetidor. De mais a mais, como bem nos ensina o filósofo Tarcísio Padilha, em seu livro ‘Filosofia, Ideologia e realidade Brasileira’, quando se fala muito em liberdade, democracia, ética, amor, respeito, educação, etc., desconfiemos! Provavelmente, os valores representados por elas estão sendo distorcidos ou mesmo, como ocorre em muitos casos, sorrateiramente eliminados.

Em regra, essas palavras são repetidas a exaustão não porque o sujeito acredite piamente no que elas representam, mas sim, porque ao aderir ao coro da vanguarda papagaiesca ele sente-se uma pessoa, como direi: muito legal, superior a todos por, supostamente, respeitar as diferenças, menos aquelas que não se enquadrem em seu imaginário distorcido, e que não ascendam aos píncaros da (in)compreensão em seu intelecto, já amortecido pelo uso excessivo destas expressões não significativas que pouco ou nada dizem a respeito da realidade. Mas que externam, sutilmente, o universo subjetivo de sua alma carcomida pelo rancor.

Penso que este fenômeno tem uma relação umbilical com o hedonismo crescente da sociedade atual e que, por sua deixa, colabora de modo profícuo com a expansão do relativismo moral. Aliás, eis aí um ponto que merece ser meditado à luz do que fora exposto acima. Uma alma embebida no néctar hedonista coloca a necessidade de satisfazer sua ânsia por prazer como valor primeiro, invertendo, de modo sórdido, a ordem axiológica, como bem nos ensina Miguel Reale em sua obra “Filosofia do Direito”. Ora, eleger a busca pelo prazer como causa final da existência é um poderoso elemento desagregador da personalidade. Basta, para perceber esse óbvio ululante, apenas uma pequena dose de sinceridade.

Doravante, tão rápido quanto um corisco, estes escudam-se com aquele relativismo moral chinfrim, para o qual, todos os valores são relativos e toleráveis, desde que a sua forma de viver e interpretar a vida seja aceita de maneira absoluta por todos, sem hesitação. Resumindo: tolera-se tudo, menos o que os contraria.

Essa é a ditadura do relativismo, a apologia duma moral autônoma e egocêntrica, como nos lembra o Papa Bento XVI, que anseia por edificar uma visão redutivista do ser humano através dum sorrateiro uso de expressões ambíguas para melhor dissimular as reais intenções que estão, melindrosamente, por trás de todo esse bom-mocismo forçado. Bom-mocismo que despreza o bem ao mesmo tempo em que diz representá-lo. No fundo, é isso que se encontra no fundo desta alcova rasa.

Esse trem é tão ridículo que chega a dar vergonha do compadre. Sei disso. Porém, não nos preocupemos, porque o grotesco também está sendo relativizado para que ninguém se sinta mal diante da verdade revelada pelos fatos.

 

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