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A existência de tantas regras limitando as possibilidades humanas de ação é o reconhecimento formal de que as esperanças do homem não devem residir em si mesmo, mas em Deus.


Há pouco mais de um mês, o então Papa Bento XVI pegou o mundo inteiro de surpresa ao anunciar a sua renúncia. Um número exíguo de pessoas conjeturava seriamente essa possibilidade, e um número ainda menor sabia que Bento XVI tinha essa intenção. Em seu anúncio, Bento XVI disse que no dia 28 de fevereiro, às 20h00, a Sé ficaria vacante oficialmente.

Após o choque inicial causado pelo anúncio, começou a corrida da imprensa internacional em especular os “reais motivos” da renúncia de Bento XVI – como se houvesse algum motivo razoável para se duvidar dos motivos elencados pelo Papa Emérito – e cobrir os preparativos para o Conclave que deveria escolher o novo Sumo Pontífice da Igreja Católica. Tivemos a oportunidade de ver uma enxurrada de “especialistas” – muitos deles não pisam numa paróquia há décadas, mas isso parece mero detalhe – sendo entrevistados diariamente pelos mais variados veículos de informação, que buscavam alguma espécie de pista, dica ou evidência do que poderia acontecer na eleição do Papa. Supostos favoritos foram eleitos pela mídia no Brasil e alhures, como os cardeais D. Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, e D. Angelo Scola, arcebispo de Milão. Falou-se muito em “partidos”, arranjos, conversas ao pé do ouvido, enfim, uma série de coisas que estamos acostumados a ver em eleições políticas ao redor do mundo. Um desfile de asneiras e sandices, a bem da verdade. No entanto, a cobertura do Conclave – e sobretudo o próprio – ensinaram muitas coisas preciosas.

Um Conclave não é um evento meramente humano, ao contrário do que se pensa. A comparação sub-reptícia e generalizada com eleições políticas comuns, comparação que se deu pela própria maneira como a reunião dos cardeais foi coberta, foi equivocada por não levar em consideração algumas características bastante especiais do Conclave: não há possibilidade de candidatura ao posto de Sumo Pontífice, ou seja, todos podem ser eleitos; a eleição é anulada se o cardeal eleito tiver votado em si mesmo; o resultado das votações é sempre secreto – o acesso aos nomes dos cardeais votados e ao quantitativo de votos é proibido, e quem divulgá-lo está automaticamente excomungado. As regras foram definidas pela Constituição Apostólica Universi Dominici Gregis, do Papa João Paulo II. Para qualquer um que não esteja familiarizado com assuntos eclesiásticos – que é o caso da quase totalidade dos jornais e revistas do mundo, pelo visto, especialmente do jornal O Estado de S. Paulo –, isso tudo pode parecer muito, muito estranho. Afinal, por que tanto segredo? Por que tantas regras? E é aí que reside a grande lição do Conclave.

Vivemos em um mundo em que somos levados a crer que, de alguma forma, somos os senhores supremos de nossas vidas. Podemos ter o controle total de nossas existências, e, se não o temos, é porque alguém o tirou de nós. Todas as doutrinas materialistas que vicejam em nossos dias possuem esse núcleo, e todas elas já se encontram devidamente diluídas em nosso cotidiano, de modo que é difícil identificá-las. Segundo elas, o homem é o senhor de si mesmo e de seu destino, e qualquer crença em contrário tem o objetivo torpe de dominação e manipulação.

No entanto, a lição do Conclave – e da própria Igreja – é diametralmente diferente: o homem não é o senhor supremo de sua própria vida. O homem só alcança a verdadeira plenitude quando seus atos não são empecilho para a ação divina. A existência de tantas regras limitando as possibilidades humanas de ação é o reconhecimento formal de que as esperanças do homem não devem residir em si mesmo, mas em Deus; é a aceitação da imperfeição humana e da perfeição divina; é a manifestação da humildade da criatura diante do Criador, dos filhos diante do Pai. Quando o homem se assume senhor de si mesmo, ele está muito, muito longe da Verdade.

Providencialmente, a própria cobertura da mídia acerca da eleição do novo Sumo Pontífice é prova desse precioso ensinamento. O cardeal D. Jorge Mario Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, um nome que sequer foi aventado pela esmagadora maioria dos meios de comunicação, foi eleito Papa hoje, 13 de março, escolhendo para si o nome de Francisco. Assim como a renúncia de Bento XVI, esse resultado pegou a todos de surpresa. Por quê? A resposta é, a um só tempo, simples e profunda: o homem só pode compreender a verdade das coisas quando deixa de olhar para si mesmo e põe seus olhos em Deus. E essa lição é especialmente preciosa nos tempos malucos em que vivemos.

 

Felipe Melo edita o blog da Juventude Conservadora da UnB.



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