E o português e a história? Não me lembro disso na faculdade. Só me lembro de Escola de Frankfurt, "função social" da informação e besteiras similares. Aliás, o chique na escola de jornalismo é passar longe do jornalismo prático. O resultado se vê nas redações. Acho que muita gente ficaria surpresa ao ter contato com jornalistas. Vários são precariamente alfabetizados e/ou ignorantes em assuntos básicos.

Tenho um amigo que passou semanas me saudando da seguinte maneira: "Tu era jornalista e não é mais, o Gilmar Mendes rasgou teu diploma e jogou no lixo!" Dia após dia, lá vinha o deboche: "Qual é a sensação de desperdiçar cinco anos de faculdade?" Era uma piada e eu ria junto, retrucando que o maior prejudicado não tinha sido eu, mas o povo brasileiro inteiro.

Para muitos profissionais e estudantes, a derrubada da obrigatoriedade do diploma de jornalismo foi uma ofensa pessoal. Um alienado qualquer poderia insinuar que os protestos da classe contra a decisão do STF têm a ver com o monopólio das vagas. Isso é um absurdo e deve ser rechaçado veementemente. Os jornalistas só se preocupam com "o social", e jamais agiriam com tanto fervor por um motivo tão mundano como reserva de mercado.

Eu estava perigosamente sem assunto para o artigo de hoje. Tomo meu café e ligo a televisão na esperança de encontrar um gancho. Esbarro na reprise da entrevista que o William Bonner deu à Marília Gabriela alguns dias atrás. Foi sorte. Disse o apresentador-editor do Jornal Nacional que as faculdades de jornalismo se preocupam mais em doutrinar os estudantes com esquerdismo do que qualquer outra coisa. E acrescentou: os cursos deveriam investir pesadamente no ensino de português e história. Ou seja: William Bonner concorda comigo.

Geralmente, o curso dura quatro anos. Em termos de instrução para o que se costuma considerar jornalismo, esse período poderia ser abreviado para dois anos tranqüilamente. Há quem sustente que bastaria um ano ou menos. O resto do tempo é gasto com aulas inúteis sobre questões abstratas e distantes, futilidade acadêmica no seu esplendor. Sem falar na famosa formação ética, que é um nome bonito e neutro para esquerdização.

E o português e a história? Não me lembro disso na faculdade. Só me lembro de Escola de Frankfurt, "função social" da informação e besteiras similares. Aliás, o chique na escola de jornalismo é passar longe do jornalismo prático. O resultado se vê nas redações. Acho que muita gente ficaria surpresa ao ter contato com jornalistas. Vários são precariamente alfabetizados e/ou ignorantes em assuntos básicos.

Voltando à brincadeira do meu amigo. Ele manga afirmando que perdi meu tempo. De certa forma, há verdade nisso. Fiz amigos, freqüentei festas memoráveis, mas o fato é que, ao olhar para trás, a conclusão é crua e inevitável: meus cinco anos na faculdade de jornalismo foram cinco anos intelectualmente jogados no lixo.

 

 

Artigo publicado no jornal O Estado

Bruno Pontes é jornalista - http://brunopontes.blogspot.com



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