O bem-estar do povo tem sido um excelente álibi para os tiranos.
Albert Camus

Mil e quinhentos anos depois do fim do Império Romano grande parte da história européia e do Oriente Médio (OM) ainda gira em torno do Mare Nostrum. Os países mais atingidos pela crise econômica, com exceção de Irlanda e Islândia, são os da franja ocidental e norte: Espanha, com Portugal a reboque, Itália e Grécia. E as expectativas da França não são das melhores(1). Por outro lado, os países que se vêem às voltas com a “primavera” são exatamente os das praias do sul e orientais: Tunísia, Líbia, Egito e Síria – a Argélia está sob ameaça constante, pois é uma panela de pressão prestes a explodir. Ao mesmo tempo, as ameaças se estendem principalmente a Israel, abominado por todos os governos "primaveris" que substituíram ditadores com retórica antissemita, mas com os quais Israel podia conversar, por partidos islâmicos radicalmente antissionistas. Só não viu isto a tempo quem não conhece a história do Islam ou estava mesmerizado pela mágica da palavra democracia. Democracia de forma nenhuma é sinônimo de liberdade; não passa de uma forma variável de escolha de dirigentes e só. E o Islam é incompatível com qualquer noção de liberdade individual, portanto é improvável, senão impossível, o estabelecimento de um regime semelhante às democracias ocidentais, em que predominam o respeito aos direitos individuais e o rule of law.

Como eu já havia previsto (2), as maiorias muçulmanas estão vencendo todas as eleições. Até mesmo na Tunísia, onde se poderia esperar algo mais parecido com a noção ocidental, o líder do partido vencedor, al-Nahda, Rashed Ghannouchi, assegurou que a condenação do Sionismo consta de um acordo entre os partidos vencedores. Ghannouchi nega que tal princípio será incluído na futura Constituição, mas ele mesmo faz parte de uma União Internacional de scholars muçulmanos liderada por Yussuf al-Qaradawi, e apoiou a anexação do Kwait por Saddam Hussein, além de ameaçar com ataques contra os EUA(3).

Os países em crise na Europa eram antigos colonizadores que continuaram após a descolonização, com interesses econômicos: a França, na Argélia, Líbano e Síria, a Espanha, no Marrocos, a Itália, na Líbia e a Inglaterra que está em melhor situação – melhor seria dizer ‘menos ruim’ – no Egito e no Iraque. Além de tudo estão expostas à avalanche imigratória muçulmana, o que põe o equilíbrio político interno e o equilíbrio diplomático numa sinuca de bico. O Egito, a maior potência regional, envolvido em conflitos internos, principalmente depois das eleições, em que o poder se dividiu entre a Fraternidade Muçulmana e o partido salafista Hizb al-Nour(4), sofre uma influência indireta dos aliados EUA e União Européia. Mas estes países jamais se atreveram a intervir militarmente como fizeram na Líbia e agora ameaçam a Síria. Quem disser que a intervenção era por razões humanitárias merece ganhar um pirulito, pois acreditam em Papai Noel – ou então são da mídia brasileira, que gravita há anos-luz de qualquer laivo de inteligência. Por que mataram mais civis do que todas as tropas de Kadhafi e deixaram intactos os campos de petróleo? Por que, mais recentemente, a empresa petrolífera francesa Total encerrou suas atividades na Síria “até que retorne a democracia”?

Os países em crise mais aguda precisam do petróleo do OM como um bebê precisa mamar.

Além disto, a crise européia é não só econômica, mas também política: o embate entre líderes nacionalistas e europeístas. Os que vibraram com as derrotas de Zapatero e Berlusconi não sabem que Rajoy e Mario Monti não passam de sátrapas da UE e do globalismo mundial oriundos das gerações política e emocionalmente comprometidas com a idéia de uma Europa unida e o fim do nacionalismo. E estão percebendo do que os povos ainda se julgam franceses, italianos, espanhóis, etc., e ameaçam voltar às suas moedas originais, mandando o Euro, que só serve à elite européia, às favas.

O que poucos perguntam é quem está por trás desta união espúria: lamentavelmente a velha Deutschland, para sempre antissemita, de onde partiu o novo design europeu. De Berlim partiram as pressões para a derrubada de Papandreu e Berlusconi e o financiamento da campanha espanhola(5). Será coincidência que a Turquia esteja simultaneamente tentando restaurar o Império Otomano(6)?

Mas isto é assunto para outro artigo.

 

Notas:
 

* - No artigo anterior, por ato falho ou negligência, pulei cinqüenta anos de história, afirmando que as colônias alemãs na África tinham se tornado independentes, quando o foram somente após a Segunda Guerra Mundial. Na verdade, foram protetorados britânicos e franceses também. Peço desculpas aos leitores.

(1) Enquanto escrevo este artigo as agências de avaliação de risco já pensam em rebaixar seu grau de confiabilidade de investimentos. Ver em http://www.lemonde.fr/election-presidentielle-2012/article/2011/12/07/sarkozy-tance-les-socialistes-et-parle-d-un-risque-d-explosion-pregnant-en-europe_1614517_1471069.html#ens_id=1268560

(2) Ver http://www.midiasemmascara.org/artigos/internacional/oriente-medio/12517-israel-e-o-verdadeiro-alvo-da-qprimaveraq-arabe.html e principalmente http://www.midiasemmascara.org/artigos/internacional/oriente-medio/12293-analise-estrategica-das-revoltas-nos-paises-arabes.html.

(3) Ver em http://www.defenddemocracy.org/media-hit/a-tunisian-islamist-looks-to-the-future/

 

(4) Fui o primeiro no Brasil a falar neste partido e sua importância (ver nota 3).

 

(5) Ver http://www.stratfor.com/analysis/20111115-problems-facing-germanys-designs-europe

(6) Ver http://www.todayszaman.com/news-264801-turkey-to-restore-ottoman-mosques-in-middle-east.html

 


Publicado no jornal Visão Judaica, de Curitiba.



 


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