Livraria Cultura

Enquanto as negociações se intensificavam durante a 57ª Comissão sobre a Condição das Mulheres (CCM), uma estatística sombria sobre violência contra as mulheres foi repetida nas salas da conferência e reportagens dos meios de comunicação. Às vezes era usada como base para promover o aborto. Contudo, é uma maliciosa distorção dos fatos. Sua autora, uma defensora do aborto, faz parte da delegação americana na CCM.

A Agence France-Press noticiou em 5 de março, o segundo dia da Comissão, “(A CCM) tem dado muita importância a um relatório do Banco Mundial que estima que mais mulheres de idades entre 15 e 44 anos são mortas violentamente do que morrem de malária, HIV, câncer, acidentes e guerra juntos.” A estatística é usada por múltiplas agências da ONU e aparece nos recursos oficiais da ONU para palestrantes. Em 13 de março, foi citada num editorial do jornal New York Times criticando a Santa Sé e seus aliados por se manterem firmes contra as campanhas feministas para transformar a reunião da CCM numa convocação para acesso mundial ao aborto.

A estatística, que aparece de muitas formas, apareceu pela primeira vez num documento de 1994 com a co-autoria de Adrienne Germain, ativista pró-aborto de longa data que atualmente está na delegação americana na CCM. Numa tabela do artigo, Adrienne e colegas comparam a violência doméstica e o estupro a uma seleção de outras causas de danos às mulheres em idade reprodutiva, confessando numa nota de final da página que a comparação é “para propósitos de ilustração”, pois a violência doméstica é analisada e classificada de forma diferente do resto dos dados na tabela.

A escolha do câncer e malária é igualmente enganadora. Dados do estudo Peso Global de Doença 2010 revelam que a maior parte dos danos causados por essas doenças ocorre fora da faixa etária dos 15 – 44. A comparação com o HIV é completamente incorreta e parece ter sido inventada por um jornalista da AFP. Sua inclusão é particularmente preocupante desde que o HIV subiu do 33º lugar de causa de peso de doença e morte em 1990 para o 5º lugar em 2004, onde permaneceu até 2000. Peso de doença é uma ferramenta usada em pesquisa de saúde pública para quantificar os efeitos combinados de deficiência, saúde debilitada e morte precoce.

Além de ser baseada numa comparação falha e ainda mais exagerada por reportagens noticiosas, essa estatística é baseada em dados do Banco Mundial de 1993, os quais são de antes da Conferência de População e Desenvolvimento (CPD) de 1994 e não incorporam os efeitos de campanhas feitas na ONU e dentro dos países membros e comunidades para lidar com violência contra as mulheres.

No documento de 1994 contendo a fonte da estatística, os autores lamentam o fato de que a definição da ONU de violência contra as mulheres “exclui leis, políticas e desigualdades estruturais que poderiam ser interpretadas como violentas (leis contra o aborto, políticas de ajustamento estrutural).” Adrienne Germain tem trabalhado com o Conselho de População, a Fundação Ford e a Coalizão de Saúde das Mulheres para promover acesso ao aborto no mundo inteiro eliminando as leis que protegem mulheres e bebês.

Num evento realizado durante o CCM, Saraswathi Menon, diretora de Divisão de Políticas Públicas da organização ONU Mulheres, expressou preocupação com a falta de estatísticas boas. “Quando importantes questões não são priorizadas na coleta de dados, então se torna fácil ignorá-las em discussões globais.”
“Dados ruins são realmente piores do que nenhum dado,” acrescentou a epidemiologista Henriette Jansen.



Tradução: Julio Severo

Publicado no 'Friday Fax' do C-FAM.


Share

Tags: ONU | aborto | globalismo | esquerdismo | feminismo