É muito estranho que um homem que afirma ser "sensível à dor humana" como Lula nada faça junto ao seu amigo Fidel Castro em favor dos que são oprimidos pela ditadura cubana.


“A tirania é um hábito, tem a propriedade de se desenvolver, e se dilata a tal ponto que acaba virando doença”

Fiodor Dostoievski

 

Com o dinheiro fácil dos empréstimos concedidos por Lula e doações de fartos créditos materiais do coronel Hugo Chávez, o ditador Fidel Castro, que se mostrava disposto a fazer “concessões democráticas” em troca de recursos externos, está partindo para a repressão total e, por extensão, aperta o torniquete em torno dos dissidentes políticos que ousam discordar do regime cubano: já são, agora, mais de 300 os “prisioneiros de consciência” que apodrecem nas 200 prisões de segurança máxima da ilha-cárcere, com destaque para as masmorras de Boniato e Kilo Prieto, pocilgas de 45 graus à sombra.

Em meados de abril, desesperado com a situação, o economista e jornalista Oscar Espinosa Chepe, uma figura emblemática da oposição cubana, escreveu carta ao presidente Lula da Silva solicitando apoio para a libertação de 61 presos do chamado “Grupo 75”, jornalistas trancafiados por Castro depois de denúncias contra os rigores do regime comunista de Cuba. Chepe, favorecido por problemas de saúde (e a pressão da Anistia Internacional) com uma “licença extra-penal”, foi claro e direto na carta (distribuída em Havana) enviada ao amigo brasileiro do provecto ditador: “Sr. Presidente: peço sua ajuda humanitária para a libertação imediata e incondicional dos 61 prisioneiros de consciência condenados a longas penas”.

Até agora Lula não deu resposta ao dissidente cubano e é completo o silêncio do embaixador do Brasil em Cuba, o ex-deputado petista Tilden Santiago, que, em casos semelhantes, dá sempre o calado como resposta – o que significa postar-se, por inferência, ao lado do regime totalitário de Fidel.

Mais próximo da ilha caribenha, no México, é desesperadora a situação de 66 cubanos que haviam sido detidos em alto-mar pela Marinha mexicana, todos desnorteados em precário barco de pesca. Os fugitivos da ilha-cárcere estão num alojamento do Instituto Nacional de Migração (INM), em Forte de Las Flores, Estado de Vera Cruz. E diante da possibilidade de serem repatriados, iniciaram greve de fome ao tempo em que exibem, pelas janelas, cartazes com apelos dramáticos: “Pelo amor de Deus: não nos deportem para Cuba, preferimos morrer aqui”. Ou ainda, em outro pedaço de papelão: “Não nos deportem; nos matarão em Cuba”.

Os fugitivos denunciam que não é possível viver no regime de exploração e precariedade vigentes na ilha, sem falar na opressão e na implacável vigilância da DGI, o centro de espionagem e informações da ditadura. “Fidel es un tirano!”, avaliam. O governador de Vera Cruz, Fidel Herrera, atendeu positivamente a um pedido do governo federal, visto que a Marinha do México não tem instalações para alojar os 66 fugitivos cubanos. Entrevistado pela imprensa, o governador foi sensível ao drama vivido pelos fugitivos: “Vamos buscar uma saída solidária”.

É muito estranho que Lula da Silva, o homem da lágrima copiosa, sempre sensível à dor humana (pelo menos assim o proclama) além de “amigo do peito” de Fidel Castro, ao qual já manifestou completa solidariedade, abrindo inclusive os cofres do BNDES para aliviar as carências da ilha-cárcere, é muito estranho, repito, que Lula se mostre insensível ao pedido de apoio de Oscar Espinosa Chepe, o emblemático dissidente cubano e permaneça no mais completo silêncio. Em outras oportunidades, personalidades menos votadas e diante de fatos semelhantes, pediram e obtiveram a complacência do senhor ditador. O próprio escritor Garcia Marques, amigo de Castro, tem a seu favor o fato inconteste de já ter ajudado a salvar inúmeros dissidentes políticos (ou pessoas do desagrado do regime), até mesmo do indefectível “paredón”. Por sua vez, a ação positiva do governador do Estado mexicano de Vera Cruz, o Sr. Herrera, demonstra que, no campo político, nem tudo está perdido e é sempre possível se tomar medidas inspiradas em “atos de consciência”.

No caso específico de Lula, o pedido de Chepe ainda é mais pertinente, visto que o Presidente metalúrgico vive de entoar, nas suas permanentes viagens e nos seus diuturnos discursos, os valores soberanos da democracia, da paz e do amor. Diante dos 61 prisioneiros de consciência, ameaçados por regime de fome e tortura nas masmorras de Boniato e Kilo Prieto, o presidente Lula, em vez do silêncio, tem a oportunidade única de fugir à retórica das palavras bombásticas e partir para a ação positiva de uma negociação justa e viável, e que pode significar a salvação de dezenas de vidas. O presidente, que já se disse um homem sem pecados, não pode ficar omisso e pecar pela omissão. Seria o mesmo que afirmar o sofisma de que a verdade, na política, é a mentira e a mentira, a paralaxe dos homens. E depois, sejamos rigorosamente verdadeiros: não será com a libertação e posterior deportação de 61 prisioneiros de consciência que a ditadura de Castro irá cair. Para mantê-la viva, pelo menos por tempo considerável, existirá sempre o apoio de países como Brasil e a Venezuela, que se esmeram, até com o sacrifício dos supremos valores da liberdade e dos direitos humanos, em escorar com atos e palavras, nos foros internacionais, uma tirania que apodrece apodrecendo os seus dissidentes e a própria significação do conceito de humanidade.

Por que não agir?

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