O documento sublinha que a Colômbia, para assinar a paz com as FARC, terá que renunciar a toda a “doutrina de segurança do Estado”.

Chama a atenção o silêncio que guardam ante semelhantes propostas a presidência da República, o Parlamento, o Ministério da Defesa, a Procuradoria, o Ministério Público e a grande imprensa.


Há três dias, durante uma reunião em Bogotá com industriais e empresários do país, o presidente Juan Manuel Santos soltou uma pérola assombrosa: que o “processo de paz” com as FARC avançava “muito positivamente”, e que a coisa ia tão bem que “se subscreveram alguns acordos” com essa gente em Havana.

Lamentavelmente, como sempre, Santos omitiu toda a precisão ou ampliação dos supostos “acordos subscritos” com as FARC e deixou todo o mundo em brasas após lançar essa concisa e enigmática frase.

Os porta-vozes do terrorismo não confirmaram a notícia e refizeram seu jogo de dizer tudo ao contrário, como fazem desde o começo dos contatos em Cuba. Pois quando “Iván Márquez” diz algo, “Andrés Paris” o corrige, ou olha para ele de soslaio, com o objetivo evidente de manter a tensão e as expectativas, mas sem que a opinião pública possa se orientar realmente acerca do que essas “partes” estão preparando para o país, ante o olho vigilante dos serviços secretos cubanos. A única coisa que a Colômbia sabe é que os negociadores, após seis ou sete reuniões em Cuba, não acabaram sequer de abordar o tema da terra, o primeiro ponto da agenda.

Entretanto, fica uma remota possibilidade de conhecer os arcanos das FARC, quer dizer, os pontos que elas esperam tirar mais adiante no final das “negociações” em Havana, ou que poderiam já estar pactuadas e assinadas se damos crédito ao que foi dito por JM Santos. Essa possibilidade é ler o que as FARC estão deslizando em documentos que por baixo dos panos, e violando os acordos sobre a “privacidade” desses diálogos, estão pondo para circular entre as pessoas de sua periferia política.
No começo de março de 2013, Alfredo Molano Jimeno escreveu em um matutino bogotano que o auto-denominado “Movimento de Vítimas de Crimes de Estado” (MOVICE), dirigido pelo representante comunista Iván Cepeda Castro e pelo sacerdote jesuíta Javier Giraldo, estava difundindo um texto intitulado “Propostas mínimas sobre a verdade, justiça, reparação e garantias de não-repetição”.

Cepeda e Giraldo pretendem, segundo Molano, entregar esse texto às “partes negociadoras em Havana” e confiam que os embaixadores dos “países garantidores do processo de paz” - Noruega e Cuba - e um organismo (não mencionado) das Nações Unidas oferecerão seu “respaldo” a esse plano. Se o resumo que Molano faz é exato, o texto do MOVICE contém os pontos principais que o presidente Santos deveria assinar “na hora de se materializar os acordos de paz”.

A maquinação em torno desse texto é obviamente um exercício de ventriloquia. O MOVICE utiliza essa técnica para lançar suas propostas mas que devem aparecer ante os meios de comunicação e as pessoas crédulas, como se tivessem emanado da “sociedade civil”.

O que esse documento preconiza é completamente demencial. Requer, em primeiro lugar, a “redução das Forças Militares uma vez terminado o conflito”, reclama “o desligamento da Polícia do Ministério da Defesa” e exige a abertura dos “arquivos de inteligência e do Exército”. Este último ponto parece essencial para eles, pois o texto insiste em que será necessário abrir “a totalidade dos documentos reservados do Estado, em especial aqueles de inteligência”. O documento sublinha que a Colômbia, para assinar a paz com as FARC, terá que renunciar a toda a “doutrina de segurança do Estado”.

Chama a atenção o silêncio que guardam ante semelhantes propostas a presidência da República, o Parlamento, o Ministério da Defesa, a Procuradoria, o Ministério Público e a grande imprensa. Esse silêncio indica que sobre esses pontos já há consenso em Havana, ou que estão dentro dos assinados pelo presidente colombiano?
O MOVICE exige, por outro lado, revisar a Lei de Vítimas e Restituição de Terras e, o que é mais curioso, “depurar” os três ramos do poder público (executivo, legislativo e judiciário), para “excluir àqueles funcionários que tenham participado ou permitido crimes (sic) contra civis ou impunidade nas investigações por estes”. Quer dizer, que o novo poder que sairia do pacto “da paz”, em vez de tirar do aparato estatal os elementos corruptos e infiltrados do PC3 que sabotam a democracia e a economia liberal, deverá jogar na rua e nos cárceres os empregados públicos honestos, os parlamentares e os magistrado que se opõem ao projeto totalitário que se perfila por trás de semelhante “acordo de paz”.

Essas pessoas, desde o mais alto personagem do Estado até o mais humilde empregado público, poderão ser destituídas e jogadas no cárcere, durante meses e anos, mediante acusações fabricadas e sem fundamento, se aprova-se esses temas alucinantes, graças ao trabalho dos agentes das FARC dentro do aparato judicial.
Leal à sua visão apocalíptica, o MOVICE pede muito mais: retirar o Exército e a Polícia do território nacional, sob o pretexto de “desmilitarizar aquelas regiões que sofreram a violência cometida por membros da Força Pública”.

Isso requer dizer uma coisa: abolir as Forças Militares da Colômbia pois, segundo o MOVICE, a ação da Força Pública é sinônimo de violação dos direitos humanos e de “violência”. O bom padre Giraldo e o representante Iván Cepeda, querem que não haja um palmo de terra onde as Forças Armadas possam existir. Uma vez conseguida essa desmilitarização total, o Estado que sobreviva a esse cataclismo deverá se submeter a um ato adicional de auto-flagelação pública. Na geringonça do MOVICE isso é formulado assim: fazer um “reconhecimento público das graves violações aos direitos humanos em que - por ação ou omissão - se viram envolvidos funcionários ou entidades do Estado”.

O MOVICE propõe, finalmente, à maneira de anzol, a criação de uma “comissão da verdade” que “poderia fornecer informação que contribua para esclarecer casos em que ficaram na impunidade”, e que ajude a “conhecer o paradeiro daquelas pessoas vítimas de desaparecimento forçado”. Por que o MOVICE não exige às FARC dar desde já essas informações suscetíveis de resgatar as pessoas desaparecidas e achar os cadáveres de suas outras vítimas?

Ante essa negativa, o MOVICE deixa ver que a “comissão da verdade” que ele propõe não seria senão uma piada, uma comissão da mentira, destinada a continuar ocultando os crimes e atrocidades cometidos pelas FARC e pelos outros aparatos criminosos do narco-comunismo e das BACRIM.


Tradução: Graça Salgueiro



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