British riot 1As revoltas não devem ter surpreendido quem tem prestado atenção.

A criminalidade feroz exibida por uma parcela desconfortavelmente ampla da população inglesa durante os protestos recentes não causou surpresa — pelo menos, não para mim. Tenho escrito sobre isso, em suas manifestações mais sutis, pelos últimos 20 anos. Perceber isso não exigiu de minha parte nenhuma grande perspicácia; pelo contrário, foi preciso uma peculiar cegueira covarde, tal como apresentada pela intelligentsia britância e pela classe política, para não ver e para não perceber o que isso significa. Não há nada que um intelectual deteste mais mudar o seu pensamento, ou um político, suas políticas.

Três homens foram atropelados e mortos enquanto tentavam proteger suas propriedades na área de Birmingham em que eu trabalhava, e por onde eu caminhava diariamente; a grande vila na qual moro às proximidades, quando estou na Inglaterra, também viu tumultos. Só alguém que nunca olhou em volta dela e nunca tirou conclusão alguma ao ver as faces e o jeito dos jovens dali poderia ter ficado surpreso.

Os distúrbios são a apoteose do Estado de Bem Estar Social e da cultura popular em sua versão britânica. A população pensa (pois é orientada nesse sentido pelos intelectuais e pela classe política) que tem o direito a um alto padrão de consumo, pouco importando seu esforço pessoal; e por não recebê-lo, em comparação ao restante da sociedade, vê isso como um sinal de injustiça. Ela se acredita tolhida, privada, (pois assim muitas vezes lhes dizem os intelectuais e a classe política) ainda que cada cidadão tenha recebido uma educação que tenha custado 80 mil dólares, pelos quais nem ele nem algum outro membro de sua família contribuíram em nada; na verdade, ele pode é ter vivido toda a sua vida às custas dos outros, de forma que cada bocado de comida, cada camisa por ele gasta, cada tevê que já assistiu, têm sido providos por terceiros. Ainda que reconhecesse tudo isso, ele não seria grato, pois dependência não gera gratidão. Pelo contrário, ele simplesmente sentiria que as subvenções não foram suficientes para que o permitissem viver como gostaria.

Ao mesmo tempo, sua educação, que saiu caro, não o preparou para nada. Seu trabalho - supondo que ele tivesse inclinação para trabalhar -, não teria valido seu custo para qualquer empregador, em parte por conta dos encargos sociais necessários para manter outros como ele em estado de ócio permanente, e em parte por conta de suas próprias características. E assim o trabalho não qualificado é realizado por estrangeiros, enquanto uma classe de pessoas do próprio país, feita de desempregados permanentes, é subsidiada.

A cultura do indivíduo nessa situação é insuficiente para melhorar seu comportamento. Uma cultura em que dá para se elevar Amy Winehouse, em sua última fase — uma cantora vulgar, semicriminosa, viciada em drogas e álcool, de letras que, efetivamente, celebram o mais degenerado tipo de vida imaginável —, ao status de heroína não é uma cultura que tenha a probabilidade de oferecer proteções contra comportamento depravados.

Por fim, a longa experiência de impunidade ensinou aos desordeiros que eles nada têm a temer da lei, que na Inglaterra se tornou comicamente frouxa — exceto para as vítimas de crimes. Para os revoltosos, o crime se tornou a configuração padrão de seu comportamento; o que é de surpreender nesses tumultos não e que tenham ocorrido, mas que não tenhan ocorrido antes, e não se tornaram um problema crônico.

 


Publicado originalmente no City Journal.

Theodore Dalrymple, médico e escritor, é colaborador do City Journal e "fellow" de Dietrich Weissman no Manhattan Institute.

Tradução: Edson Camargo



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