VII Encontro – Porto Alegre (Brasil) 1997

DECLARAÇÃO SOBRE CULTURA

7º Encontro do Foro de São Paulo Seminário de Cultura

Política Cultural Latino-americana frente ao Neoliberalismo 30 e 31 de julho de 1997

Resolução

I. Na economia da América Latina o neoliberalismo significou a abertura das fronteiras, o estabelecimento do mercado como regulador da economia e a compreensão de que o Estado fracassou na direção da sociedade. Atualmente verifica-se que o encantamento com o neoliberalismo já passou. A estabilidade econômica atingida pelas políticas neoliberais cobra um custo elevado que se expressa nos altos índices de desemprego, na desarticulação do sistema produtivo através da globalização da economia sem nenhum controle e pelo fluxo irracional de capitais resultando num quadro de desconstrução nacional.

Ocorre uma profunda mudança na cultura política com a crise dos modelos que ou procuravam superar ou procuravam regular o capitalismo, respectivamente o socialismo burocrático do leste e a social-democracia. No Brasil entra em crise o nacional-desenvolvimentismo que propiciou um crescimento vultoso mas foi um grande concentrador de renda e de poder. Hoje essa nova cultura política se expressa na necessidade de manter a ancoragem cambial que só poderia ser mantida com a garantia da reeleição dos presidentes que a implantaram, veja-se a Argentina de Menem, Brasil de FHC, o México e até o Uruguai onde, o presidente foi demovido de propor a reeleição. Essa nova cultura política culmina no que os franceses chamaram de "Pensamento Único", ou seja, os parâmetros do desenvolvimento econômico estabelecem o caminho único: o neoliberalismo, um crime contra a humanidade.

A política cultural do neoliberalismo resume-se a submeter a cultura ao mercado, combater a diversidade e com isso combater qualquer forma de pensamento crítico.

O produto cultural enquanto mercadoria - como toda a mercadoria - tem que ser reposta. Mas deve prevalecer para a cultura contemporânea a concepção de que o bem cultural era produzido para durar para a eternidade, como diria Goethe, sendo os meios de comunicação de massa recurso fundamental para a difusão e democratização desses bens. A cultura contemporânea tem um caráter volátil, banal, superficial, fugaz. Pretende-se assim a padronização do gosto e do mercado.

Torna-se tarefa das gestões democrático-populares uma política cultural crítica ao esvaziamento, de valorização do conjunto de bens culturais da sociedade - sem concessões e sem demagogia. Essa política passa pelos seguintes eixos:

  1. Cidadania Cultural - O ser humano deve ser visto como cidadão, e não como consumidor, como sujeito, criador e protagonista da cultura;
  2. Democratização - através da criação de fóruns efetivos de participação cultural;
  3. Descentralização - através da constituição de pólos culturais que dêem acessibilidade a toda a população, em espaços hoje atingidos pelo modelo da mídia. Mostrar e reforçar a diversidade e a riqueza cultural, socializar os bens culturais consagrados ou não eliminando as barreiras tradicionais;

Por meio desses eixos devemos contrarrestar a indústria cultural massificante e pasteurizada que não sofre nenhuma forma de controle democrático. É necessário mudar os hábitos de padronização cultural, não trabalhar cultura ao sabor das pesquisas de mercado. Fundamental é constituir uma identidade cultural fortalecida.

II. A pluralidade e a diferença, tão caras e importantes para a cultura, são elementos inviáveis no processo de globalização que homogeneiza e pasteuriza toda informação e cultura. Vivemos na era das imagens e do pacto das grifes. Marcam essa era a colagem, o reforço do individualismo, a bricolagem e o pastiche reforçando ao máximo o narcisismo e uma suposta individualização. Tudo isto resulta numa plastificação da cultura. Estabelece-se assim a perversidade das mídias através da combinação da mídia, do grande capital e da política.

Enquanto temos hoje uma ausência de ética veiculada pelos donos da mídia, que funciona como justificativa e não como padrão, é fundamental recuperar as capacidades de reflexão, crítica, criação e transformação como características humanas fundamentais.

É importante diferenciar o produto cultural de bens culturais. Devemos contrapor ao neoliberalismo uma cultura que significa valores universais, diversidade cultural e liberdade crítica em oposição ao obscurantismo do pensamento único.

III. Frente ao movimento de globalização da economia e a internacionalização das informação influindo na massificação e deterioração das culturas locais, garantir a diversidade e pluralidade étnica e cultural na formulação de políticas culturais.

Frente à imposição do pensamento único que a política neoliberal imprime à América Latina e Caribe, mais interessada em garantir um mercado sem barreiras alfandegárias e percebendo a necessidade de contrarrestar a submissão da cultura ao mercado, homogeneizando e pasteurizando toda expressão cultural - o que traz consigo o isolamento do ser humano, desenraizando-o - faz-se necessário no âmbito da política cultural:

  • Instituir o Seminário de Cultura do Fórum de São Paulo em caráter permanente para avançar na construção de políticas culturais para a América Latina e Caribe. Ficam definidas comissões de trabalho que se reunirão sistematicamente para:
  1. Realizar levantamento das políticas que vem sendo desenvolvidas pelos governos municipais e estaduais do campo democrático e popular configurando um diagnóstico;
  2. Analisar as políticas culturais que os partidos, movimentos, grupos vem desenvolvendo, configurando um diagnóstico;
  • Realizar uma pesquisa do impacto econômico das atividades culturais. No Uruguai apurou-se que chega a 4% do PIB, ultrapassando tradicionais setores industriais;
  • Incentivar o ensino da língua castelhana nos currículos de I e II graus no Brasil e da língua portuguesa onde for possível nos países de língua castelhana;
  • Divulgação do Prêmio Casa das Américas e eventos afins que procuram resgatar a riqueza cultural nas áreas do cinema, literatura e música.
  • Encaminhar as resoluções deste seminário para o Comissão de Legisladores de Cultura do Mercosul a realizar-se em 12 e 13 de novembro, na Câmara Federal, em Brasília;
  • Que a Fundação Perseu Abramo e outras entidades funcionem como divulgadora das experiências de políticas culturais significativas para a integração latino-americana;
  • Reedição do FLAAC - Festival Latino Americano de Arte e Cultura promovido pela UnB em 1987 e 89;
  • Promover e incentivar a publicações da literatura e demais expressões culturais latino-americana e caribenha.

Porto Alegre, 31 de julho de 1997

http://200.155.6.3/site/temp_fsp/html/encontros_int02.asp?DescEvento=32&even=VII%20Encontro%20-%20Porto%20Alegre%20(Brasil)%20-%201997