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Desde o primeiro minuto em que o presidente Santos diga “sim” ao diálogo que Timochenko propõe, a maquinaria internacional das FARC se porá de novo em marcha.


Contra o que alguns estimam neste momento, não acredito que o senhor Timochenko esteja pedindo “diálogo” ao presidente Santos. Ele fez isso em uma ou duas mensagens, mas mudou de tática e de tom, quando viu que podia ir mais longe. Timochenko, em seu último texto de 9 de janeiro, está exigindo coisas antes de dialogar. O homem é astuto. Está pedindo, por exemplo, que lhe despejem o Catatumbo, que lhe retirem os “milhares de soldados e dezenas de naves artilhadas em plano de guerra” que ele acredita que o Estado colombiano situou lá, “em Cúcuta, Ocaña, Tibú e outras localidades”. Depois de provavelmente se consultar com o poder militar venezuelano, o pérfido Timochenko exige da Colômbia que essa zona de fronteira fique sem proteção para ele poder mover-se sem problemas. Em seguida, Hugo Chávez se propôs como “mediador” em qualquer tentativa de diálogo com as FARC. O que estão preparando as FARC e Caracas nessa região?

Algo muito grave, sem dúvida, pois quatro dias depois seis, municípios do Norte de Santander foram atacados pelas FARC (em Tibú, Teorema, Sardinata, Hacarí, San Calixto e Convención), o que deixou três civis mortos, três civis feridos, dois policiais feridos, um vão do oleoduto Petronorte explodido e uma torre elétrica demolida.

O plano de Timochenko é completo, pois pretende, ademais, utilizar a população dessa região como força de choque. O chefe das FARC está tratando de instigar o ódio de classe e a suspeita, os melhores ingredientes da guerra civil, para confundir e dividir a população dessa zona de valor estratégico. Não é senão ver a caricatura que faz dos dois lados que, segundo ele, existem ali: por um lado, as empresas petroleiras, de carvão e de palma oleoginosa (que ele demoniza com os epítetos de “transnacionais” e “depredadoras”), e do outro os cultivadores, colonos e indígenas que são, segundo o falso refrão marxista, as “vítimas” dos primeiros. Se esse parágrafo não é uma ameaça contra as empresas e contra a população em geral do Catatumbo, é o que?

O mais infame: nessa mensagem, que ele intitula “Sem mentiras, Santos, sem mentiras”, Timochenko tenta lavar as mãos por sua matança de reféns do 26 de novembro passado no Caquetá. As FARC não são culpadas, diz o chefe terrorista: o culpado é o Governo. Timochenko exibe ali o ódio que sente pelos jornalistas que não dançam conforme a sua música, ao ameaçar Herbin Hoyos por seu trabalho de apoio às famílias dos seqüestrados pelo bando narco-terrorista. Essa é a terceira ameaça grave que o texto do chefe das FARC contém. O governo deve proteger Herbin Hoyos e os jornalistas, pois Timochenko ameaçou-os a todos.

Isso é o que alguns colunistas, uns por cegueira e outros por negligência, chamam a “retórica menos belicosa” de Timochenko, ou a “mudança de tom de Timochenko”. Uma conhecida jornalista chega a ver o chefe terrorista como “esmerado escritor”.

Sem dúvida, é muito “esmerado” esse indivíduo, mandante do assassinato de monsenhor Duarte Cancino em março de 2002, entre outros crimes, como acaba de anunciar o juiz segundo especializado de Cali. “Esmerado”, pois Timochenko afirma que a verdade não existe, pois esta depende “de quem e com que difusão a afirme”, que o que um comunista diz é verdade e o que um “burguês” diz é mentira. A esse grau de miséria intelectual chegaram alguns mandarins da esquerda bogotana, que não temem se arrastar pelo lodo ante as ninharias ideológicas das FARC.

Esses mandarins estão entusiasmados, pois Timochenko lançou a proposta de “retomar a agenda que ficou pendendo (sic) no Caguán”. Não vêem que assim se vai conformando a nova farsa contra a Colômbia. Desde o primeiro minuto em que o presidente Santos diga “sim” ao diálogo que Timochenko propõe, a maquinaria internacional das FARC se porá de novo em marcha. Os Pérez Esquivel, a esquerda caviar norte-americana e espanhola, o chavismo latino-americano e a extrema esquerda européia, se porão a ganir em coro: Santos deve paralisar as operações das Forças Armadas e aceitar a “solução negociada” que as FARC propõem. Santos deve fazer com que a “justiça transicional”, em via de incrustação na Constituição, se encarregue de encontrar a brecha para que ninguém seja julgado nem punido (pois essa é a meta dessa curiosa “justiça”), e que em seguida se abra a grande festa bárbara: que todos esses criminosos tenham permissão para entrar em atividade proselitista e propagandística na Colômbia, que se lance outra vez a União Patriótica, e que se instale uma assembléia constituinte onde eles e seus assessores estrangeiros tenham a voz principal. E que a Colômbia cale e sofra.

Essa agenda de transbordamento do Governo começará com a abertura de qualquer tipo de diálogo. Pois o que interessa não é o diálogo senão o rito, o gesto. Com ele, as FARC poderão comprar uma anistia de fato. Sua meta é que lhes retirem a classificação de organização terrorista nos Estados Unidos e na Europa, que essas potências retirem o apoio à Colômbia e que os governos “progressistas” permitam às FARC abrir “escritórios de paz” em cada capital. Se o conseguem, os êxitos formidáveis da Colômbia contra as FARC nos últimos dez anos terão sido em vão.

Essa é a receita para fazer o corralito para Santos e para enterrar definitivamente a linha de firmeza contra a insegurança. Santos um dia pede às FARC “gestos de paz” e no outro rechaça toda a idéia de um novo Caguán. Qual é a linha verdadeira? Timochenko fará “gestos de paz”, sem dúvida, enquanto continua a guerra com ajuda das BACRIM, para empurrar Santos a um pântano: para que ele converse em algum lugar, em uma zona desmilitarizada, como Timochenko prefere, ou no estrangeiro, como sugerem as boas almas do Governo. E, sobretudo, como pede o ex-presidente Andrés Pastrana. Quem cedeu 48.000 km² às FARC durante três anos, convertendo-se no responsável pelo maior auge que elas tenham tido em toda sua história, agora aparece como o mais perspicaz negociador “da paz”. Ele aconselha Santos a abrir um diálogo no exterior e não se sabe que outras coisas mais. Pois Santos havia posto alta a pauta para conversar com as FARC: um cessar fogo unilateral, a entrega de suas armas e que liberem todos os seus seqüestrados (Reuters, 10 de janeiro de 2012). Isso é pedir muito a Rodrigo Londoño, cognome “Timoleón Giménez” ou “Timochenko”, que se sente apoiado por alguns para exigir tudo antes de dialogar.

Enquanto isso, os colombianos, civis e militares, continuam enterrando os mortos, como acabamos de ver no Norte de Santander. A Colômbia não tem nada que negociar com as FARC, salvo sua rendição incondicional definitiva.



Nota:

O corralito foi estabelecido, na Argentina, para evitar e interromper a retirada de depósitos em contas-correntes e poupanças, que seriam trocados por dólares ou transferidos diretamente para o exterior. Para tanto, congelaram-se os depósitos dos poupadores e estabeleceram-se limites semanais para a retirada de fundos.

Isso foi feito para impedir a quebra do sistema financeiro, ante uma corrida aos bancos, e evitar uma crescente falta de liquidez. Foi imposta pelo governo de Fernando de la Rúa em dezembro de 2000, em plena crise econômica da Argentina. 


A justificativa secundária almejada por Domingo Cavallo, ao cargo do Ministério da Economia Argentina, foi conseguir um maior uso dos meios de pagamento eletrônico, evitando assim a evasão impositiva e provocando a “bancarização” da população, sendo este um benefício para os bancos.


Essa medida causou grande convulsão social na Argentina, ante o caráter impopular da referida medida e da não resolução da crise econômica, mas somente da postergação dos efeitos mais negativos. Tudo isso culminou com a derrubada do governo de centro-esquerda de Fernando de la Rúa. (Fonte: Wikipédia)

 

Tradução: Graça Salgueiro

 



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